Uma das maiores formadoras de preço do planeta acabou de dizer em voz alta o que qualquer pessoa com um mínimo de honestidade intelectual já sabia: o problema dos mercados na era da inteligência artificial não é o crescimento exagerado, é a inflação que vem por baixo, silenciosa, corroendo poupança, salário e contrato como cupim em viga de madeira. E olha que coisa curiosa, justo agora, quando bilhões correm para data centers, chips e infraestrutura energética, a conversa volta a ser sobre o velho fantasma que supostamente tinha sido domado pelos sábios de Basileia e Washington. Quer dizer, domado coisa nenhuma. O fantasma estava no porão, esperando a deixa.
O raciocínio é elementar e por isso mesmo escapa aos doutores. Quando se despeja capital colossal num setor específico ao mesmo tempo em que a oferta de energia, mão de obra especializada e terras industriais é finita, o preço relativo dessas coisas sobe. Adiciona-se a isso o detalhe pitoresco de que esse capital, em grande parte, não veio da poupança real de ninguém, veio da expansão monetária dos últimos quinze anos, daquela festa de juros zero que financiou unicórnios deficitários, ESG performático e guerras alheias. A conta dessa farra não evaporou; ela apenas mudou de endereço, e agora está chegando como o cobrador de aluguel no primeiro dia do mês.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que inflação é um fenômeno climático, que aparece misteriosamente como tempestade tropical? Inflação tem dono, tem CPF, tem endereço. Sai do prédio do Banco Central, passa pelo Tesouro, e vai parar no bolso do contribuinte que paga duas vezes: uma na nota fiscal e outra no poder de compra que evaporou enquanto ele dormia. O boom da IA está sendo subsidiado, direta ou indiretamente, por garantias estatais, incentivos fiscais, créditos baratos e uma promessa implícita de que, se a coisa azedar, o resgate vem. Privatizam-se os lucros, socializam-se os prejuízos, e no meio do caminho o cidadão comum descobre que o pãozinho subiu vinte por cento.
Olha, é preciso uma certa coragem intelectual para admitir o óbvio nessa altura do campeonato. A inteligência artificial em si não é o problema, ao contrário, é provavelmente a maior promessa de produtividade desde a eletricidade. O problema é o arranjo financeiro que a embala. Quando uma tecnologia genuinamente revolucionária encontra um sistema monetário viciado em estímulo, o resultado não é apenas crescimento, é distorção. Capital fluindo para onde não deveria, salários explodindo em nichos específicos enquanto evaporam em outros, e bolsas subindo não porque as empresas valem mais, mas porque a moeda em que são cotadas vale menos. Não é mágica, é aritmética.
E aí entra o ponto que ninguém quer tocar com luva cirúrgica: o medo do banqueiro central não é a inflação em si, é ter de combatê-la a sério. Subir juros para valer significaria expor a fragilidade fiscal dos governos endividados até o pescoço, quebrar empresas zumbis mantidas vivas por crédito artificial, e admitir publicamente que a década passada foi uma ilusão financiada com tinta de impressora. Por isso a estratégia é jogar com palavras, criar siglas, inventar metas flexíveis, redefinir o que conta como núcleo da inflação, qualquer coisa para empurrar a conta para o próximo mandato. Enquanto isso, quem trabalha, poupa e investe descobre que está correndo numa esteira ergométrica em velocidade crescente.
A lição é antiga e por isso mesmo será ignorada de novo. Não existe almoço grátis, não existe revolução tecnológica financiada por mágica, e não existe Banco Central capaz de produzir prosperidade real apertando botões. O que produz é o trabalho, a poupança genuína, o investimento que aceita risco real e o sistema de preços livres que sinaliza onde o capital deve ir. Tudo o mais é cosmética sobre cadáver. Quando o pó da euforia da IA assentar, e ele vai assentar, sobrarão duas categorias de pessoas: as que entenderam que a inflação era o jogo desde o começo, e as que ainda estão perguntando por que o salário não rende mais nada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.