A inflação na Nova Zelândia veio acima do esperado no primeiro trimestre e, previsivelmente, acima da meta do banco central local. Previsivelmente porque é isso que acontece quando um país passa anos inundando o sistema de liquidez, mantendo juros artificialmente baixos e financiando gastança estatal com impressora, e depois finge surpresa quando os preços sobem. Quer dizer, é como jogar gasolina numa fogueira durante uma década e estranhar que a casa esteja em chamas. Os economistas de terno do RBNZ agora coçam a cabeça, revisam projeções, redigem comunicados cheios de jargão, e o neozelandês médio paga mais caro pelo leite, pela gasolina e pelo aluguel.

Convém lembrar o que ninguém quer lembrar. A Nova Zelândia foi vendida ao mundo, durante anos, como modelo de gestão macroeconômica moderna. Pioneira no regime de metas de inflação nos anos noventa, aplaudida por acadêmicos, citada em teses de mestrado, usada como exemplo em cursos de política monetária. E no entanto, quando a crise bateu, fez exatamente o que qualquer banco central faz quando a pressão aperta: abriu a torneira, cortou juros, expandiu balanço e rezou para que a conta não chegasse. A conta chegou. Sempre chega. O que muda é apenas o endereço de entrega, e o endereço é sempre o mesmo: o bolso do trabalhador.

Olha, a história monetária dos últimos cem anos é uma sequência monótona do mesmo erro cometido por homens diferentes com gravatas diferentes. Expansão de crédito artificial gera boom que parece prosperidade genuína, investimentos fluem para setores que não se sustentam sem juro subsidiado, imóveis explodem, bolsa sobe, todo mundo se sente rico, e então a realidade bate à porta cobrando o aluguel atrasado. Na Nova Zelândia o padrão foi livresco. Bolha imobiliária dentre as mais violentas do mundo desenvolvido, famílias endividadas até o último cabelo, e agora inflação persistente que o banco central jurava ser transitória. Transitória virou palavra-maldita do vocabulário econômico da década, e com razão.

Me diz uma coisa: se um particular falsificasse dinheiro no porão de casa, seria preso por crime contra a economia popular. Quando o banco central faz a mesma coisa em escala industrial, chama-se política monetária expansionista e ganha elogio do Financial Times. A diferença entre o falsário e o presidente do banco central é apenas o tamanho da prensa e o papel timbrado. O resultado econômico é idêntico: diluição do poder de compra de quem trabalhou para ganhar seu dinheiro, transferência silenciosa de riqueza dos poupadores para os devedores, e empobrecimento geral disfarçado de estatística.

O mais grotesco é o teatro que se segue. O mesmo banco central que causou o problema é chamado para resolvê-lo, como bombeiro piromaníaco que incendeia a casa e depois cobra caro para apagar o fogo. Sobe juro, comprime a economia, joga pequenas empresas na falência, engole empregos, e o cidadão que nunca pediu inflação nenhuma paga duas vezes: paga quando os preços sobem e paga quando o juro aperta. Os responsáveis pela bagunça, claro, mantêm seus salários polpudos, seus status de sábios-do-povo, suas cadeiras em conselhos internacionais. Ninguém nunca é demitido por errar em conjunto seguindo o manual.

A lição que a Nova Zelândia oferece de graça para quem quiser aprender é a mesma que Roma aprendeu com Diocleciano, que a Alemanha aprendeu nos anos vinte, que a Argentina reaprende a cada década e que o Brasil insiste em esquecer. Moeda que o Estado imprime à vontade vira confete. Preço que o mercado não forma livremente vira mentira. E promessa de banco central sobre inflação controlada tem o mesmo valor da promessa de político em véspera de eleição. O único sistema monetário honesto é aquele em que ninguém tem o poder de fabricar dinheiro com um clique, e é exatamente por isso que ninguém no poder quer esse sistema.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.