Imagine uma sala lotada onde milhões de pessoas conversam ao mesmo tempo, cada uma negociando, oferecendo, recusando, ajustando expectativas. Aparentemente, é caos. Na prática, é a coisa mais ordenada que a humanidade já produziu, porque dessa balbúrdia emerge um número, o preço, que carrega informação que nenhum gabinete, nenhum comitê, nenhum ministério jamais conseguirá produzir. O preço diz ao produtor o que vale a pena fabricar, ao consumidor o que vale a pena adquirir, ao investidor onde existe escassez real e onde existe abundância. Tudo isso sem ata de reunião, sem PowerPoint, sem decreto. Funciona porque ninguém está no comando, e exatamente por isso funciona.

Agora, entra o sujeito de gravata na sala e começa a gritar palavras aleatórias num megafone. As pessoas continuam tentando conversar, mas o sinal foi corrompido. É exatamente isso que a inflação faz com o sistema de preços. Quando a autoridade monetária despeja moeda nova na economia para financiar gastança que não cabe no orçamento, ela não está apenas roubando o poder de compra de quem trabalhou, embora esteja fazendo isso também. Ela está sabotando o canal de comunicação mais sofisticado da civilização. O empresário olha para o preço subindo e não sabe se o produto dele ficou mais desejado, se os insumos ficaram mais escassos, ou se o sujeito do megafone simplesmente abriu a torneira de novo. Decide errado. Investe errado. Demite errado.

E aí começa o teatro previsível. Surgem os explicadores oficiais dizendo que a culpa é da guerra, do clima, do supermercado ganancioso, do petróleo, do dólar, da China, da Lua. Qualquer coisa, menos a única causa real, que é o próprio governo financiando déficit com impressora disfarçada de política monetária moderna. Quem paga a conta? O aposentado que vê o pão custar trinta por cento mais em dezoito meses. O trabalhador cujo salário foi reajustado em cinco por cento enquanto a inflação real comeu doze. A pequena empresa que não consegue mais precificar o estoque do mês que vem. Já quem ganha? O Estado, que desvaloriza a própria dívida. O grande banco, que tem acesso preferencial ao dinheiro novo antes que ele perca valor. O político, que distribui benesses pagando com moeda que ainda parece valiosa, embora já não seja.

Esse é o detalhe que ninguém aprende na escola pública. A inflação não atinge todo mundo igualmente, e nem chega ao mesmo tempo. Quem está perto da fonte de emissão gasta o dinheiro novo enquanto ele ainda compra o que comprava ontem. Quando a notícia da abundância monetária chega às camadas mais baixas da pirâmide econômica, na forma de aumento generalizado de preços, o estrago já foi feito. É uma transferência silenciosa de riqueza, dos que produzem para os que estão conectados ao poder, executada sem necessidade de assinar imposto novo no Congresso. Vem na forma mais covarde de tributação já inventada, aquela que o cidadão paga sem nem saber que está pagando.

O efeito de longo prazo é ainda mais perverso, porque o ruído permanente no sistema de preços ensina o agente econômico a desconfiar do próprio cálculo. Ninguém mais planeja para dez anos, porque dez anos viraram um abismo de incerteza. O empreendedor encolhe o horizonte. O investidor foge para ativos defensivos, ouro, dólar, imóvel, qualquer coisa que o governo tenha mais dificuldade de corroer. O capital produtivo, que é o que gera emprego de verdade, fica órfão. E quando alguém aparece propondo controle de preços para resolver o problema que o próprio governo criou, fecha o ciclo. Cada intervenção gera distorção, cada distorção exige nova intervenção, até a economia virar uma caricatura na qual ninguém mais sabe quanto vale o quê.

O preço estável não é luxo nem detalhe técnico. É a infraestrutura invisível sobre a qual qualquer sociedade próspera se constrói. Sabotá-lo em nome de "estimular a demanda" ou "aquecer a economia" é o equivalente monetário de cortar o cabo de comunicação do controle de tráfego aéreo para reduzir o atraso dos voos. Vai funcionar maravilhosamente, até o primeiro choque. Depois, sobram os destroços e a explicação oficial de que ninguém poderia ter previsto.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.