A Inflection Point Acquisition Corp. III, uma daquelas siglas que ninguém sabe explicar na mesa do bar, anunciou com pompa a nomeação de Jae Hyun Park como diretor independente. Diretor independente de quê, exatamente? De uma empresa que não produz absolutamente nada, não vende absolutamente nada, não emprega praticamente ninguém e cuja única função no universo é arrecadar dinheiro na bolsa para, um dia, comprar outra empresa qualquer. É como contratar um síndico independente para um prédio que ainda não foi construído, num terreno que ainda não foi comprado, num bairro que talvez nem exista.

O truque das SPACs, essas companhias de aquisição com propósito específico, é uma dessas engenhocas que só floresceram porque alguém, em algum comitê regulatório, decidiu que seria charmoso criar uma via expressa para empresas driblarem o IPO tradicional. O resultado é uma indústria inteira de promotores que levantam bilhões prometendo encontrar "a joia escondida", cobram taxas generosas pelo serviço de procurar, e quando não encontram nada que preste, ainda assim saem com o bolso cheio. O investidor de varejo, aquele que acreditou na narrativa, frequentemente sai com o prejuízo e a lição.

Siga o dinheiro e você verá o desenho. Os patrocinadores da SPAC ficam com ações a preço simbólico, algo como centavos de dólar, enquanto o público paga dez dólares por ação. Se o negócio der certo, os patrocinadores multiplicam por cinquenta, cem vezes o investimento inicial. Se der errado, o prejuízo é socializado entre os acionistas comuns. Privatizam-se os ganhos, coletivizam-se as perdas, e chamam isso de inovação financeira. A nomeação de um diretor independente serve para dar verniz de respeitabilidade a um arranjo que, sem o verniz, pareceria o que é.

E aqui está o ponto que os comunicados oficiais nunca mencionam: a figura do "independente" é uma ficção jurídica criada para satisfazer exigências regulatórias que a própria regulação inventou para resolver problemas que ela mesma criou. É burocracia se alimentando de burocracia, cada camada nova justificando sua existência pela camada anterior, até o ponto em que ninguém mais lembra por que tudo aquilo começou. O mercado livre não precisaria de diretor independente numa empresa de gaveta, pela simples razão de que empresas de gaveta não existiriam num mercado livre de verdade, onde capital só flui quando há produção real para financiar.

Olha, a pergunta honesta é outra. Se o sujeito é qualificado, por que precisa do selo "independente" para ser levado a sério? E se o selo é que importa, então o que está sendo vendido não é competência, é conformidade. E conformidade com regras arbitrárias é exatamente o combustível que mantém girando essa engrenagem de arbitragem regulatória que chamam, sem o menor pudor, de mercado de capitais moderno.

Quer dizer, no fim do dia, o anúncio de hoje é um parágrafo num press release que ninguém leu, sobre uma empresa que não faz nada, nomeando alguém para vigiar quem não tem o que ser vigiado, até que apareça algo para ser comprado com dinheiro dos outros. E enquanto o teatro continua, a verdadeira inovação, aquela que nasce de sujeitos arriscando o próprio capital para produzir algo que as pessoas queiram comprar, disputa espaço num ambiente onde o papel ganha mais que o produto. Quando o cassino paga melhor que a fábrica, a civilização começou a consumir o próprio estoque.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.