A Informa TechTarget, gigante da pesquisa setorial que vende relatórios a peso de ouro para corporações, executivos e fundos de investimento, errou suas próprias projeções no primeiro trimestre de 2026. Os números vieram abaixo do que a casa havia prometido, e o mercado, como sempre faz quando o feiticeiro tropeça no próprio feitiço, ajustou as expectativas para baixo. Quer dizer, a empresa cuja única mercadoria é prever tendências não conseguiu prever a si mesma. Há ironia mais densa do que essa?
O ponto que ninguém quer enxergar é que toda essa indústria de previsão corporativa repousa sobre uma pretensão fatal, a de que algumas dezenas de analistas em escritórios refrigerados conseguem comprimir, dentro de um relatório de cento e cinquenta páginas, o conhecimento disperso entre milhões de empresas, consumidores, fornecedores e variáveis políticas que nenhum modelo econométrico jamais capturou. Não conseguem. Nunca conseguiram. E ainda assim cobram caro pela ilusão de que conseguem, porque o cliente corporativo prefere pagar por uma planilha confiante do que admitir que está navegando no escuro como todo mundo.
Olha, a história das grandes consultorias de tecnologia é um cemitério bem cuidado de previsões erradas. Foi essa mesma classe de oráculos que jurou que o tablet mataria o notebook, que a realidade virtual dominaria o consumo até 2020, que o blockchain reinventaria todos os contratos do planeta antes de 2025 e que a inteligência artificial generativa não passava de moda passageira até descobrirem, no susto, que estavam vendendo o relatório errado. Erram com a regularidade de um relógio quebrado, mas continuam vendendo porque o ecossistema corporativo precisa do álibi. Quando a diretoria toma uma decisão de bilhões e ela dá errado, alguém precisa ter um relatório embaixo do braço para justificar.
Siga o dinheiro e a paisagem fica mais nítida. A Informa não vive da precisão, vive da assinatura. O modelo de negócio é recorrente, o cliente paga todo ano, e o produto é a sensação de informação privilegiada, não a informação em si. Errar uma previsão de receita própria é constrangedor, mas não é fatal, porque o que sustenta a empresa é o ritual, não o resultado. É o mesmo arranjo das agências de rating que carimbavam triplo A em hipotecas podres em 2007, das casas de análise que recomendavam Lehman Brothers semanas antes da quebra, das consultorias que vendiam transformação digital como panaceia. O erro é caro para o cliente, lucrativo para o vendedor.
Há uma lição mais funda aqui, e ela vale para muito além do trimestre ruim de uma empresa específica. Toda vez que alguém promete entregar o futuro embrulhado num PDF, está vendendo a mesma mercadoria que astrólogos vendem em feira de bairro, só que com mais gráficos e fontes serifadas. O futuro econômico emerge da interação caótica de bilhões de decisões individuais, de rupturas tecnológicas que ninguém previu, de eventos políticos que escapam de qualquer modelo. Achar que isso cabe num relatório anual é a mesma arrogância que produziu cinco planos quinquenais soviéticos seguidos, todos catastróficos, todos vendidos como ciência.
Me diz uma coisa, se a própria consultoria não consegue prever o próprio caixa do trimestre que está acontecendo agora, por que diabos um diretor de tecnologia confiaria nela para prever o setor inteiro daqui a cinco anos? A resposta honesta é que não confia, finge que confia, porque o teatro corporativo exige a encenação. E enquanto durar a encenação, o cheque continuará sendo assinado, o relatório continuará sendo impresso, e o cliente continuará pagando para ouvir, com voz grave e gráfico colorido, aquilo que ele já desconfiava sozinho. O profeta de planilha sobrevive porque o cliente prefere o álibi à verdade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.