Existe um tipo de absurdo que só o Estado moderno é capaz de produzir com consistência: um país exporta recursos para o mundo inteiro e, ao mesmo tempo, pede socorro porque não tem combustível para seus próprios cidadãos. A Austrália faz isso com elegância rara. É um dos maiores exportadores de gás natural liquefeito do planeta e está dependendo de carregamentos extras de condensado, cedidos por uma empresa japonesa, para manter suas refinarias em operação. Quando você consegue transformar abundância em escassez, você não está tendo azar. Você está colhendo política.

O condensado de gás natural é a matéria-prima da gasolina, do diesel, do querosene de aviação. A Austrália tem. A Austrália vende. Só não sobrou o suficiente para os australianos. Esse resultado não é acidente, não é conspiração estrangeira, não é crise climática. É a consequência previsível de décadas em que governos australianos de todos os matizes decidiram quem podia exportar, quanto podia exportar, em que preço, para quem, com que regulação. O mercado foi substituído por um comitê. O comitê errou. A conta está sendo paga no posto de gasolina.

A Inpex, empresa japonesa que opera o projeto Ichthys no noroeste australiano, vai disponibilizar dois carregamentos adicionais de condensado para refinadores domésticos. Deveria ser uma boa notícia. Mas se você parar para pensar, é uma notícia perturbadora: um dos maiores exportadores de LNG do mundo depende da boa vontade de uma empresa estrangeira para não entrar em crise de abastecimento. Isso não é resiliência energética. É vulnerabilidade embrulhada em bandeira.

O que ninguém conta nessa história é o que se perdeu no caminho. A Austrália fechou suas últimas grandes refinarias ao longo dos últimos anos. Os governos aplaudiram a transição, os ambientalistas festejaram, os jornais publicaram editoriais sobre o futuro verde. As refinarias fecharam uma a uma, os empregos sumiram, a capacidade produtiva foi embora. Agora o país que tinha refinarias não tem mais refinarias, e o país que tem o recurso bruto não tem como processá-lo em escala suficiente para si mesmo. Capacidade industrial destruída não se reconstrói com decreto. Nunca se reconstruiu, em lugar nenhum, em tempo algum.

Siga o dinheiro e você encontra um arranjo que beneficiou exportadores durante décadas. Eles lucraram vendendo o recurso bruto para o exterior em contratos de longo prazo, enquanto o mercado doméstico ficou dependendo de um modelo que ninguém ficou explicitamente encarregado de defender. Não existe neutralidade nessa escolha. Alguém se beneficiou com a exportação irrestrita. Alguém se beneficiou com o fechamento progressivo das refinarias. E alguém vai se beneficiar agora com a crise, quando as políticas de emergência entrarem em cena carregando novos controles, novos comitês, novos reguladores com novos poderes. A crise gerada pela regulação será resolvida, inevitavelmente, com mais regulação.

O que a Austrália está vivendo é um experimento em escala continental sobre o que acontece quando uma nação entrega o planejamento de sua segurança energética a pessoas que nunca precisaram produzir uma gota de petróleo, nunca firmaram um contrato de fornecimento, nunca viram uma refinaria por dentro. Planejadores centrais têm uma vantagem cruel: eles nunca pagam pelo próprio erro. Quem paga são os motoristas na fila do posto, as famílias com conta de energia em alta, os pequenos empresários cujo diesel subiu enquanto as minutas regulatórias circulavam em Canberra. A ilha exporta combustível e mendiga gasolina, e o governo já está estudando a próxima intervenção para resolver o problema da intervenção anterior.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.