A Instacart acaba de anunciar a aquisição da Instaleap, uma empresa de logística de entregas com presença na América Latina e em outros mercados emergentes. O objetivo declarado é nobre: expandir sua plataforma empresarial para mercados internacionais. O objetivo real é mais prosaico e, convenhamos, mais honesto do que a maior parte do que se lê nos comunicados corporativos do Vale do Silício. A Instacart quer faturar globalmente sem ter que sujar as mãos com a complexidade brutal de montar redes de entrega em países onde a infraestrutura não foi desenhada por engenheiros de Stanford.

Existe uma lógica antiga nesse tipo de movimento, tão antiga quanto os impérios comerciais que preferiam comprar entrepostos a conquistar territórios. Quando uma empresa americana de tecnologia olha para a América Latina, para o Sudeste Asiático ou para a África, ela enxerga duas coisas: um mercado consumidor enorme e uma dor de cabeça operacional igualmente enorme. A solução elegante, e a Instacart não inventou isso, é adquirir quem já resolveu o problema local. A Instaleap já tinha os contratos, já conhecia os gargalos regulatórios, já sabia que em Bogotá a logística de última milha funciona de um jeito e em São Paulo funciona de outro completamente diferente. Comprar esse conhecimento é mais barato do que aprendê-lo na marra.

O que chama atenção, porém, é o que essa aquisição revela sobre o estado atual do mercado de delivery. A Instacart, que chegou a ser avaliada em quase 40 bilhões de dólares no auge da pandemia, viu seu IPO em 2023 entregar uma fração daquilo. O crescimento doméstico desacelerou, a competição com Amazon Fresh e Walmart é brutal, e o investidor quer ver a curva subindo. Expansão internacional, nesse contexto, não é visão estratégica; é necessidade de sobrevivência embalada como ambição. A diferença entre as duas coisas é sutil, mas quem acompanha o setor há tempo suficiente sabe distinguir uma da outra pelo cheiro.

Há algo de revelador também no modelo escolhido. A Instacart não vai lançar sua marca em outros países. Vai oferecer a plataforma como serviço para varejistas locais, um modelo de bastidor, de infraestrutura. É quase como se a empresa tivesse finalmente entendido que o verdadeiro poder no comércio digital não está na vitrine, está na tubulação. Quem controla a logística, o software de picking, o algoritmo de roteirização, esse sim come o bolo. O varejista local fica com o nome na fachada e com a margem espremida. Não é muito diferente do que aconteceu com os hotéis quando as plataformas de reserva tomaram conta: o dono do hotel ainda troca os lençóis, mas quem manda no fluxo de hóspedes é a plataforma.

Para o Brasil e para a América Latina como um todo, a notícia tem um sabor agridoce. Por um lado, a tecnologia da Instaleap vai receber investimento pesado e provavelmente melhorar. Por outro, mais uma empresa de tecnologia latino-americana acaba absorvida por um player americano antes de atingir escala própria. Esse padrão se repete com uma regularidade que já deveria ter provocado uma conversa séria sobre política industrial de tecnologia nos nossos países, mas aparentemente ainda estamos ocupados demais discutindo se o governo deve ou não regular o preço do aplicativo de transporte. Enquanto isso, a infraestrutura digital do continente vai sendo comprada, pedaço por pedaço, por quem tem capital paciente e visão de longo prazo. A soberania tecnológica não se perde em uma grande batalha; se perde em dezenas de aquisições silenciosas que ninguém lê além da página três do caderno de economia.

Com informações da TechCrunch. A análise e opinião são do O Algoz.