Dezenas de mortos no Mali, incluindo civis, vítimas de mais um ataque insurgente naquele cinturão sahariano que virou laboratório a céu aberto do fracasso intervencionista ocidental. A notícia chega seca, quase burocrática, como se fosse boletim meteorológico. E é, de certa forma, porque o massacre no Sahel virou clima, virou estação. Todo mês tem, e todo mês o mundo finge surpresa. A pergunta que ninguém faz, porque é deselegante fazer, é a seguinte, depois de duas décadas de tropas francesas, missões da ONU, programas da União Europeia, fundos do Banco Mundial e palestras intermináveis sobre "construção institucional", por que o Mali está pior do que estava quando começou tudo isso?
A resposta é incômoda porque desmonta uma indústria inteira. O Sahel não é uma região esquecida pelo dinheiro internacional, ao contrário, é uma das mais regadas. Bilhões de dólares e euros desceram naqueles areais nos últimos vinte anos, em nome do desenvolvimento, da estabilização, do combate ao terrorismo, do empoderamento, do que você quiser. O que se vê é o caixão dos civis. O que não se vê é o circuito milionário de consultorias, ONGs, contratos de defesa, viagens de funcionários internacionais e relatórios em PDF que ninguém lê. O dinheiro entra, evapora, e quando o jihadista chega de motocicleta com fuzil, descobre-se que a tal "capacitação institucional" não constrói trincheira, não treina soldado, não para bala.
Há um padrão histórico que se repete com a teimosia das coisas óbvias. Toda vez que uma potência distante decide refazer um país pobre de cima para baixo, o que ela produz é dependência, corrupção e vácuo de poder. O Estado local apodrece porque não precisa do consentimento do próprio povo, vive de transferência externa. As elites locais aprendem rapidamente que a moeda forte da política não é servir o cidadão, é agradar o doador estrangeiro. E quando o doador cansa, ou o vento muda em Paris ou em Bruxelas, fica o esqueleto de um Estado que nunca aprendeu a se sustentar e populações desarmadas, infantilizadas, transformadas em vítimas perpétuas à espera do próximo carregamento de farinha de trigo com bandeirinha no saco.
O que se vendeu como humanitarismo foi, no fim, um arranjo de compadrio transcontinental. Os generais da junta maliana dançam agora com mercenários russos porque os franceses se foram, mas a lógica é idêntica, terceirizar a soberania, alugar a violência, manter o povo desarmado e dependente. Enquanto isso, o cidadão de Bamako ou de uma aldeia perdida no norte não tem direito a se defender, não tem instituições que respondam por ele, não tem mercado funcional que lhe ofereça alternativa de vida que não seja entrar para a milícia ou virar refugiado. A propriedade dele não vale nada, a vida dele vale menos. É o resultado lógico de um sistema onde tudo pertence a todos, ou seja, a ninguém, e onde a única instituição operante é o homem armado mais próximo.
E aqui mora a lição que o Brasil deveria ler com o olho no espelho. Toda vez que se concentra poder em estrutura distante, federal, internacional, multilateral, o que se entrega é exatamente a capacidade de a comunidade local resolver seus próprios problemas. O Sahel é o aviso luminoso de para onde vai uma sociedade quando o Estado vira simultaneamente onipresente e inoperante, quando a burocracia substitui a vizinhança, quando o discurso humanitário substitui a responsabilidade individual, quando o cidadão é tratado como tutelado eterno de algum gabinete em outro continente. A ajuda externa, com a melhor das intenções declaradas, mata mais do que salva, porque destrói os mecanismos orgânicos pelos quais um povo aprende a se governar.
O massacre desta semana terá nota oficial, condolências, hashtag, talvez um minuto de silêncio em alguma reunião de cúpula. Daqui a duas semanas, outro massacre. E em algum escritório com vista para o Sena ou para o East River, alguém vai redigir mais um plano de "resposta integrada à crise no Sahel", com orçamento robusto e zero resultado mensurável. Os mortos do Mali não interessam à máquina, o que interessa é a máquina seguir girando. A caridade que se faz com o dinheiro do contribuinte distante e com o sangue do camponês próximo não é caridade, é negócio. E como todo negócio mantido por força e não por escolha, só termina quando acaba o dinheiro ou acaba a paciência. No Sahel, está acabando os dois ao mesmo tempo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.