Entre os dias seis e oito de maio, a cidade de Gramado, encravada na serra gaúcha, recebe pela nona vez consecutiva o tal Gramado Summit, no centro de feiras Serra Park. A organização espera vinte e três mil participantes e mais de quinhentas empresas expositoras, números respeitáveis para um país onde a maior parte das feiras de tecnologia se resume a três palestrantes recauchutados, dois patrocinadores de banco digital e um auditório cheio de gente tirando foto do crachá. O detalhe que merece atenção, contudo, está no tema escolhido para esta edição: a inteligência humana como protagonista. Convenhamos, é uma rendição interessante.

Durante quase uma década, o circuito de eventos brasileiros vendeu a fantasia inversa, a de que o sujeito de carne e osso era um estorvo a ser substituído por algoritmos, automações e plataformas. O empreendedor virou figurante de keynote, o trabalhador virou variável de planilha de produtividade, e o palco foi tomado por gurus que confundiam ler três posts no LinkedIn com pensamento estratégico. Agora, depois de a inflação de promessas alcançar o tamanho da bolha pontocom dos anos noventa, o discurso muda. A inteligência humana volta a ser citada, com aquele constrangimento típico de quem percebeu, tarde demais, que estava torcendo contra o próprio time.

O programa traz nomes conhecidos do varejo nacional, executivos de companhias listadas em bolsa, especialistas em marketing digital e, claro, a inevitável fileira de patrocínios bancários que financiam quase tudo o que se passa por inovação no Brasil. Não há nada de errado em si com isso, mas convém lembrar que feira de tecnologia patrocinada por banco tende a produzir o mesmo tipo de inovação que congresso médico patrocinado por laboratório farmacêutico. As ideias circulam, sim, mas dentro de uma cerca invisível que ninguém ousa pular. O participante atento percebe rapidamente quais palavras estão proibidas e quais teses precisam ser repetidas em loop.

Há, porém, um aspecto digno de aplauso, e seria desonesto negá-lo. Eventos como esse, realizados longe do eixo Rio São Paulo, cumprem uma função civilizacional importante, que é descentralizar a discussão técnica e tirar o protagonismo das mesmas três avenidas paulistanas onde tudo acontece. Gramado, com seu turismo já consolidado, sua infraestrutura de hotelaria e sua localização estratégica no Mercosul, oferece condições que a Faria Lima jamais oferecerá, a saber, ar respirável, comida decente e a possibilidade de conversar com o vizinho de mesa sem gritar. A serra gaúcha está, lentamente, virando um polo improvável e por isso mesmo legítimo.

O que se espera de quem for até lá, então, não é mais um banho de buzzwords, e sim a coragem de perguntar o óbvio. Onde estão os engenheiros de hardware brasileiros, os fabricantes de chip, os criadores de protocolos abertos, os autores de software livre que sustentam a infraestrutura do mundo sem cobrar um centavo? Esses sujeitos, geralmente, não recebem convite para palco principal, porque construir não rende foto bonita. Mas é deles que depende qualquer pretensão séria de soberania tecnológica nacional, e não dos influenciadores de produtividade que vendem curso de mil e duzentos reais para ensinar o que está de graça em qualquer documentação oficial.

Se a edição deste ano cumprir o que promete e devolver o ser humano ao centro do palco, terá feito mais pela tecnologia brasileira do que dez anos de pregação automatizadora. Se for apenas um rebranding cosmético, daqueles que trocam a etiqueta sem trocar o produto, restará a paisagem da serra como consolo. Em qualquer dos cenários, vale o deslocamento. Em terra onde quase tudo é teatro, ao menos o cenário precisa ser bonito.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.