Pois bem, um membro do conselho do Invesco CurrencyShares Japanese Yen Trust entregou a carta e foi embora, e o comunicado oficial veio com aquela solenidade burocrática que pretende transformar rotina em acontecimento. Quer dizer, é assim que funciona o teatro: cria-se um conselho para um veículo que basicamente segue o preço do iene, paga-se honorário, exige-se formulário, e quando alguém cansa da encenação, emite-se um filing à SEC com a gravidade de quem anuncia a morte de um chefe de Estado. O fato concreto é prosaico. O significado é que ninguém quer encarar.
Olha, o tal trust nada mais é do que uma cesta de ienes guardada num banco custodiante, embalada como ativo financeiro e vendida ao investidor americano que quer apostar contra ou a favor da moeda japonesa sem abrir conta em Tóquio. Conselho independente, comitê de auditoria, governança impecável, tudo isso serve para vestir de respeitabilidade institucional um produto cuja sorte depende exclusivamente do que decidirem, em salas fechadas, os burocratas do Banco do Japão. O investidor acha que comprou exposição a uma moeda. Comprou, na verdade, exposição às neuroses políticas de um comitê monetário que há trinta anos confunde estímulo com vício.
Me diz uma coisa, qual o sentido de discutir a saída de um conselheiro quando o ativo subjacente é uma moeda que perdeu mais de um terço do seu valor frente ao dólar em poucos anos, justamente porque a autoridade que a emite se recusa a parar de imprimir? A dívida pública japonesa beira os duzentos e cinquenta por cento do PIB, o banco central detém quase metade dos títulos do próprio governo, e ainda assim a ficção de que aquilo é dinheiro sério se mantém porque o ritual institucional não pode parar. Cada conselheiro que entra, cada conselheiro que sai, cada relatório trimestral, tudo cumpre a função litúrgica de empurrar para debaixo do tapete a pergunta proibida: o que sustenta o valor disso aqui?
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara ainda. O trust cobra taxa de administração sobre os ativos. O custodiante cobra para guardar o iene. O conselho cobra para existir. Os auditores cobram para auditar. Os advogados cobram para redigir o comunicado da renúncia. Toda essa cadeia de profissionais bem pagos vive de uma única premissa, a de que o investidor precisa de intermediação sofisticada para acessar uma moeda fiduciária qualquer, quando bastaria, em tese, um clique numa corretora de câmbio. A complexidade não existe para servir o cliente. Existe para justificar a comissão.
E aqui mora a lição que os comunicados oficiais jamais ousarão escrever. O investidor médio, vendo aquele filing tão formal, é levado a acreditar que existe um adulto na sala cuidando do seu dinheiro. Não existe. Existe um arranjo onde cada parte cuida da sua própria comissão enquanto a moeda subjacente é corroída pela política monetária mais frouxa do planeta desenvolvido. A renúncia de um conselheiro é apenas a confirmação de que até quem está de dentro, vez ou outra, percebe que ali se vende ar empacotado em papel timbrado. O resto é coreografia para que o iludido não desconfie do truque.
No fim, a notícia que parece técnica é política, a saída que parece administrativa é simbólica, e o produto que parece sofisticado é, no fundo, uma aposta de que os japoneses continuarão pacientes enquanto seu poder de compra evapora em silêncio. Conselheiro vai, conselheiro vem, e a impressora segue ligada. O cargo é descartável. A farsa é permanente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.