A Alphabet acordou bilionária outra vez. Saiu da geladeira onde os analistas a tinham guardado como exemplo de gigante encalhado, atropelado pela OpenAI, e ressurgiu como a queridinha de Wall Street disputando palmo a palmo com a Nvidia o título de empresa mais valiosa do mundo. Tudo isso em poucos meses, com basicamente os mesmos engenheiros, os mesmos servidores, a mesma infraestrutura que estava lá no trimestre passado, quando o mercado a tratava como dinossauro condenado. Quer dizer, a empresa não mudou. O humor de quem precifica é que oscila como adolescente apaixonado.
Vale lembrar de onde sai esse dinheiro todo que está empurrando as ações para cima. Não vem de produtividade nova, não vem de fábrica construída, não vem de consumidor pagando mais por um produto melhor. Vem de balcão de banco central que despejou trilhões na veia do sistema financeiro durante anos, vem de juro real negativo que empurrou poupança honesta para a roleta da bolsa, vem de fundo de pensão obrigado por mandato a buscar retorno onde houver pulso. O capital está procurando casa, e a narrativa da inteligência artificial é o imóvel mais bem iluminado do quarteirão. Não é avaliação fria de fluxo de caixa, é peregrinação religiosa em busca de um próximo milagre.
Olha, todo ciclo tem essa cara. Ferrovia no século dezenove, rádio nos anos vinte, internet em noventa e nove, imóveis em dois mil e sete. A tecnologia era real, o impacto era real, e ainda assim o preço das ações descolou da economia subjacente até o tombo inevitável. A Nvidia vende picaretas para os garimpeiros da inteligência artificial e fatura como se cada cliente fosse durar para sempre. A Alphabet agora promete vender as ferramentas, o ouro e o mapa do tesouro ao mesmo tempo. Quando a mesma empresa promete dominar todas as camadas da pilha tecnológica, geralmente é sinal de que o investidor parou de fazer pergunta incômoda.
Me diz uma coisa. Onde está o lucro novo que justifica setecentos, oitocentos, novecentos bilhões adicionados a uma capitalização que já era estratosférica? A receita publicitária do Google continua sendo o que sempre foi, uma máquina madura que cresce em dígito simples. A nuvem está crescendo, sim, mas longe de ser monopólio. A inteligência artificial generativa ainda queima caixa para entregar respostas de qualidade variável que ninguém sabe direito como monetizar sem destruir o próprio modelo de busca que paga as contas. O que está sendo precificado não é resultado, é fé. E fé em planilha de Excel é o nome elegante do que sempre se chamou de aposta no escuro.
Tem ainda o detalhe que ninguém quer enxergar. Essas avaliações monstruosas dependem de um ambiente regulatório benigno, de juro contido, de geopolítica estável, de chip taiwanês chegando no porto e de energia elétrica disponível em quantidade que nenhuma rede do planeta foi projetada para entregar. Basta uma dessas peças deslizar para o castelo de cartas mudar de paisagem. E enquanto isso governos do mundo inteiro afiam o cutelo antitruste contra exatamente as empresas que o mercado está coroando como reis perpétuos. A contradição é gritante e o investidor médio escolhe não ouvir.
O capitalismo de verdade celebra o lucro que vem de servir o consumidor melhor e mais barato que o concorrente. O que está acontecendo em Wall Street é outra coisa, é um cassino financiado por dinheiro fácil onde gigantes consolidados engolem capital que poderia estar criando dez mil empresas novas em dez mil garagens diferentes. Quando a euforia passar, e ela sempre passa, vão dizer que ninguém viu chegar. Viram, sim. Só preferiram dançar enquanto a música tocava.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.