Um brigadeiro-general iraniano apareceu na televisão estatal para anunciar que as forças armadas do país estão em alerta máximo de combate. Do outro lado do oceano, Trump publicou ameaças em letras maiúsculas e assinou ordens de bloqueio contra Teerã. A imprensa ocidental cobriu o espetáculo com seriedade de velório, como se dois governos cujas economias estão em frangalhos fossem, desta vez, cumprir o que prometem. Quer dizer, a cena já foi encenada tantas vezes desde 1979 que assistir a ela sem ceticismo clínico é um ato de ingenuidade que a realidade não perdoa.
Toda guerra começa com linguagem, e a linguagem desta crise segue o roteiro de sempre com precisão quase cômica. O Estado iraniano, incapaz de entregar prosperidade ao seu próprio povo depois de décadas de teocracia e má gestão econômica, precisa do inimigo externo como precisa do ar. Sem os americanos na posição de vilão global, o regime de Teerã teria que explicar por que o rial vale menos do que o papel em que é impresso, por que a inflação corrói as famílias iranianas há anos, por que os jovens do país sonham em sair. O alerta máximo de combate é, antes de qualquer coisa, um instrumento de política doméstica. Sempre foi.
Mas seria desonesto parar no Irã. A equação só funciona porque há dois lados dispostos a jogar. Trump descobriu, como todo governante descobre antes dele, que a ameaça externa é o mecanismo mais antigo e eficiente de consolidação do poder interno. Quando a atenção do eleitorado está nos mísseis do Golfo Pérsico, ela não está nos déficits recordes, na dívida que explodiu, nas promessas que não foram cumpridas. Siga o dinheiro: os contratos de defesa americanos não assinam sozinhos, e cada ciclo de escalada com o Irã aquece setores muito específicos da economia americana que têm lobbies muito específicos em Washington. Isso não é conspiração, é mecânica do poder, e funciona tão bem em 2026 quanto funcionava no tempo dos canhoneiros.
As sanções, apresentadas como instrumento de pressão estratégica, são na prática uma forma sofisticada de planejamento central aplicado a uma nação inteira. O governo americano decide o que o povo iraniano pode comprar, vender, exportar e importar. Quem sofre não são os generais que aparecem na televisão anunciando alertas de combate, bem alimentados e bem pagos pelo erário; quem sofre é o comerciante de Teerã que não consegue mais importar peças para sua maquinaria, é o paciente que não encontra medicamentos, é a família que vê seu poder de compra destruído pela combinação de má gestão interna e pressão externa. As sanções punem exatamente quem não escolheu o regime, e aliviam a pressão sobre exatamente quem o sustenta, pois nada une uma população a um governo mais do que a sensação de estar sendo atacada de fora.
Olha, há um padrão histórico tão claro que fica constrangedor ter que explicar. Impérios em declínio relativo, quando não conseguem mais crescer para dentro, crescem para fora em forma de conflito. Não é novidade do século XXI; Bizâncio fazia isso, Roma fazia isso, o Império Otomano fazia isso nos seus estertores. A diferença é que hoje o espetáculo é transmitido ao vivo, com analistas de gravata comentando cada tweet como se fosse o Tratado de Vestfália. O alerta máximo de combate iraniano vai durar exatamente o tempo politicamente conveniente para ambos os lados, depois vai arrefecer para um novo estado de tensão administrada que justifica orçamentos militares, retórica inflamada e eleitorado mobilizado. É o negócio mais lucrativo que dois Estados inimigos podem tocar juntos.
Me diz uma coisa: quando foi a última vez que uma crise assim terminou com menos Estado, menos gastos militares, menos controle sobre o cidadão comum? A resposta é nunca. Toda escalada geopolítica, independentemente de quem vence a narrativa, termina com governos maiores, burocracias mais caras, liberdades mais estreitas e contas mais gordas para quem fabrica o ferramental do medo. O povo iraniano não votou no alerta máximo de combate. O contribuinte americano não aprovou o bloqueio. Mas ambos vão pagar, em moeda forte ou em direitos, a fatura que dois governos emitiram no nome deles.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.