A notícia chega com a solenidade de sempre, como se fosse novidade. Autoridades iranianas ameaçam impor uma zona de exclusão marítima no Golfo Pérsico e atacar instalações de energia dos Estados Unidos na região, e imediatamente as telas dos operadores em Londres, Cingapura e Nova York piscam vermelho. O Brent sobe, o WTI acompanha, e o brasileiro que amanhã vai abastecer o carro em São José do Rio Preto paga a conta de uma disputa geopolítica travada a doze mil quilômetros de distância. É o mundo funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar, e é justamente aí que mora o escândalo.
Olha, um regime teocrático quebrado, sancionado até os ossos, com moeda derretendo e povo faminto, ainda consegue mover o preço da energia mundial com um comunicado. Como? Simples. Décadas de política energética suicida no Ocidente entregaram ao aiatolá a chave do cofre. Enquanto os europeus fechavam usinas nucleares para agradar ativista de camiseta reciclada e os americanos travavam oleodutos por decreto presidencial em nome da agenda verde, o Irã, a Rússia e a Venezuela ganhavam poder de chantagem sobre a civilização industrial inteira. Quer dizer, o burocrata de Bruxelas que proibiu o motor a combustão até 2035 é sócio silencioso do regime dos aiatolás. Não assinou contrato, mas produziu o resultado.
E note quem lucra com o pânico. Fundos alavancados em commodities, traders com posição comprada em petróleo, o complexo militar-industrial que já vislumbra novas encomendas, os políticos de Washington que precisam de um inimigo externo para justificar o próximo pacote fiscal, e claro, o próprio regime iraniano, que vende barris a preço inflado pela crise que ele mesmo fabrica. É o velho arranjo onde a bagunça beneficia sempre quem tem informação privilegiada e conexão política, enquanto o custo escorre pela cadeia até estacionar no bolso da dona de casa que vai pagar dez centavos a mais no litro do óleo de soja. Siga o dinheiro e você encontra sempre os mesmos endereços.
A parte cômica é a solenidade com que os analistas de banco tratam a ameaça como se fosse fenômeno natural, tipo terremoto ou eclipse. Não é. É consequência direta de escolhas específicas, feitas por pessoas específicas, com nome, sobrenome e mandato. Quem decidiu que era boa ideia depender de um estreito de cinquenta e cinco quilômetros de largura controlado por um regime messiânico para abastecer metade da frota mundial? Quem sabotou o fraturamento hidráulico em nome do clima e depois foi comprar gás russo por baixo do pano? Quem transformou reservas estratégicas em instrumento de campanha eleitoral? O aiatolá não criou essa vulnerabilidade, ele apenas descobriu que ela existe e apertou o botão.
O que se vê é o navio de guerra americano cruzando o Golfo, a manchete no jornal, o discurso inflamado do porta-voz do Pentágono. O que não se vê é a fábrica que fecha em Minas porque o custo do diesel para escoar produção subiu de novo, o caminhoneiro autônomo que perde a margem, o pequeno agricultor que vai renegociar dívida no ano que vem, o assalariado que descobre no supermercado que o pacote de arroz encolheu mais um pouco. A guerra que ninguém declarou é travada no orçamento doméstico, e a fatura não vem com timbre do Departamento de Estado, vem impressa no cupom fiscal do posto.
A lição, se alguém quiser aprender, é sempre a mesma e por isso mesmo ninguém aprende. Toda vez que um governo decide substituir a lógica fria do mercado energético por sonhos de comitê, entrega poder de barganha para quem não brinca de sonhar. O petróleo é chato, é sujo, é feio, mas mantém o mundo rodando. Enquanto os iluminados do primeiro mundo insistirem em fingir que a física pode ser derrotada por resolução da ONU, o Estreito de Ormuz vai continuar sendo a artéria mais cara e mais frágil da economia global, e qualquer maluco de turbante saberá que basta espirrar para o Ocidente pegar pneumonia. A liberdade energética não é bandeira ideológica, é condição de sobrevivência, e quem abre mão dela por vaidade escolhe voluntariamente o próprio coleira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.