O episódio é daqueles que merecem uma olhada fria antes da reação emocional. Um navio é apreendido no Estreito de Ormuz pelos Estados Unidos, o Irã grita pirataria e promete resposta rápida, e a imprensa internacional corre para enquadrar a cena dentro do roteiro de sempre, bandido e mocinho, com distribuição de papéis conforme o editor de plantão. Quer dizer, ninguém parece se perguntar o óbvio. Desde quando uma marinha estrangeira tem autoridade moral para abordar embarcações em águas que banham o quintal de outro povo, a quinze mil quilômetros da própria costa? A pergunta incomoda porque a resposta honesta destrói o teatro.

Olha, Ormuz não é um detalhe de mapa. Por ali passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, o que significa que qualquer espirro naquele corredor vira gripe no preço da gasolina em São Paulo, em Bogotá, em Lagos e em Jacarta. Cada vez que Washington resolve flexionar músculo num estreito que não é seu, o prêmio de risco sobe, as seguradoras reajustam apólices, os fretes engordam e a conta desce pela cadeia até aterrissar no bolso do sujeito que encheu o tanque hoje de manhã sem entender por que o litro subiu trinta centavos. Isso que não se vê é o verdadeiro imposto da política externa americana, cobrado sem votação, sem plebiscito, sem cerimônia.

Me diz uma coisa, a quem serve essa encrenca permanente? Siga o dinheiro e o enredo clareia. Complexo industrial militar com contratos renovados, produtores de xisto americano beneficiados pelo petróleo caro que o próprio Golfo tenta evitar, burocracia do Pentágono justificando orçamentos obscenos, think tanks em Washington que vivem da indústria da ameaça permanente, e uma constelação de consultores que prosperam toda vez que um navio é apreendido em algum canto do mundo. O contribuinte americano financia a festa, o consumidor global paga a entrada, e os beneficiários da sangria aparecem nas listas de doadores de campanha dos dois partidos. É o capitalismo de compadrio vestido de estratégia geopolítica.

O Irã, convém lembrar, não é nenhuma ilha de virtude. É uma teocracia decadente, sustentada por um regime que enforca dissidentes e financia milícias. Mas a questão aqui não é defender aiatolá nenhum, e sim recusar a falsa escolha entre apoiar Teerã ou aplaudir o intervencionismo de Washington. Existe uma terceira posição, a do bom senso antigo que construiu a civilização ocidental antes de ela entregar a política externa a burocratas iluminados, cada povo cuida do seu quintal, o comércio flui onde há vantagem mútua, e exércitos ficam em casa salvo agressão direta. O resto é soberba imperial disfarçada de ordem internacional baseada em regras, regras essas que mudam conforme convém ao escritório que as redige.

A ironia é que toda intervenção gera a próxima intervenção. Aborda-se um navio, o adversário retalia, retaliação exige contra-retaliação, e o que começou como operação pontual vira compromisso indefinido financiado pelos nossos netos via dívida pública. Chamam isso de projeção de poder. O nome correto é espiral. E quando essa espiral estoura, como sempre estoura, os arquitetos já estarão aposentados em sinecuras bem pagas, escrevendo memórias em que se apresentam como estadistas incompreendidos pelo vulgo.

No fim do dia, o que está em jogo em Ormuz não é a segurança energética mundial, é a ilusão de que um punhado de gente em salas refrigeradas do Potomac consegue gerenciar a complexidade de bilhões de decisões que atravessam aquele estreito todos os dias. Não consegue, nunca conseguiu, nunca conseguirá. E toda vez que tentam, sobra pedágio para o mundo pagar. Pirataria com farda continua sendo pirataria, mesmo quando o pirata usa bandeira bordada.

Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.