O fato é simples e merece ser olhado com a calma de quem já viu esse filme antes. Irã e Arábia Saudita, os dois polos do islã que se odeiam desde o século sétimo, voltaram a sentar à mesa para discutir "redução de tensões regionais". A imprensa ocidental noticia como se fosse mais um capítulo banal da diplomacia do Oriente Médio, quando na verdade é o anúncio público de uma reorganização tectônica que vem sendo costurada há anos, longe das câmeras americanas e europeias. Quem patrocinou o reencontro? Não foi o Departamento de Estado. Não foi Bruxelas. Foi Pequim. E quem paga a conta dessa cordialidade súbita entre xiitas e sunitas é, no fim, o consumidor europeu de energia e o contribuinte americano que financia bases militares cada vez mais decorativas.

Olha, não existe almoço grátis em política internacional, e quem acredita que dois regimes teocráticos resolveram fazer as pazes por amor à humanidade precisa rever urgentemente as leituras de cabeceira. O que se vê é o aperto de mão sorridente, o comunicado conjunto, a foto institucional. O que não se vê, e é justamente o que importa, é a reconfiguração silenciosa das rotas de petróleo, dos contratos em yuan, da arquitetura militar do Golfo, do papel do dólar como moeda de reserva no comércio energético. Cada vez que o noticiário oficial trata um movimento geopolítico como "boa notícia para a paz", é hora de procurar quem está embolsando o que ninguém está vendo.

Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. A Arábia Saudita já vende petróleo em moeda chinesa, o Irã exporta cru para Pequim driblando sanções americanas, e ambos foram convidados para os BRICS ampliados. O que está sendo construído ali não é paz no sentido cristão da palavra, é um eixo comercial e estratégico que substitui o petrodólar por algo novo, com regras escritas em mandarim e arbitradas em Xangai. Washington passou décadas garantindo a segurança do Golfo achando que estava comprando lealdade. Comprava, no máximo, paciência. Quando a potência protetora demonstra fraqueza, dúvida moral e incoerência estratégica, os protegidos começam a procurar outro patrão. É da natureza humana, e nenhuma quantidade de discurso sobre "valores compartilhados" muda isso.

Quer dizer, a ironia histórica é deliciosa para quem aprecia o gosto amargo da realidade. Foram os Estados Unidos que destruíram o equilíbrio regional invadindo o Iraque em 2003, entregando Bagdá de presente a Teerã. Foram os europeus que financiaram a primavera árabe achando que estavam plantando democracias e colheram califados. Foram as sanções unilaterais, aplicadas com a arrogância típica de quem acha que pode redesenhar civilizações milenares de cima para baixo, que empurraram o Irã para os braços da China e da Rússia. Cada intervenção bem intencionada gerou um efeito colateral pior, cada efeito colateral exigiu nova intervenção, e o resultado é o que se vê agora, sauditas e iranianos conversando sob mediação chinesa enquanto o ocidente ainda discute pronomes em comissões parlamentares.

Me diz uma coisa, qual a lição para o leitor brasileiro que olha esse tabuleiro do outro lado do Atlântico? A lição é que ordens internacionais não são construídas por comitês, declarações de princípios ou conferências da ONU. São construídas por quem produz, quem compra, quem vende e quem tem coragem de proteger as próprias rotas comerciais sem pedir licença. O Brasil, com seus complexos coloniais reciclados em discurso terceiro mundista, gasta energia diplomática brigando com pauta de gênero em organismos internacionais enquanto o mundo se reorganiza em torno de energia, comida e tecnologia. Enquanto isso, nossas elites continuam achando que política externa é assunto de embaixador falando francês em jantar, e não de engenheiro garantindo que a soja chegue ao porto e o petróleo da camada pré sal tenha comprador.

O abraço entre Riad e Teerã não é o começo de uma era de paz, é o atestado de óbito de uma ordem que durou oitenta anos e que morreu de causas autoinfligidas. Quem confunde recuo estratégico do hegemon com pacificação genuína vai acordar amanhã pagando o petróleo em moeda que não controla, comprando tecnologia de quem não respeita propriedade intelectual e dependendo de rotas marítimas patrulhadas por marinhas que não falam inglês. A história não acaba, ela apenas troca de protagonistas, e os novos não estão nem aí para os sermões que os antigos ainda insistem em proferir.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.