A imprensa estatal iraniana saiu na frente para desmentir, com a secura de quem já ouviu esse disco antes, o anúncio americano de que haveria uma nova rodada de negociações. Não haverá. O que existe, na prática, é um presidente em Washington precisando de manchete favorável e um regime em Teerã que entendeu há décadas que a sobrevivência política interna depende, em grande parte, de nunca aparecer ao lado do inimigo histórico sem arrancar-lhe primeiro algo palpável. O resto é encenação, e encenação cara, paga com dinheiro alheio.
Olha, a diplomacia das grandes potências virou, faz tempo, um balcão de ilusões em que cada gesto é calibrado para o noticiário da noite, não para resolver coisa alguma. Anuncia-se uma conversa que não existe, o mercado de petróleo estremece, armamentistas celebram em silêncio, e o contribuinte americano, que custeia bases, porta-aviões e sanções, descobre no jornal do dia seguinte que foi ator involuntário de um teatro cujo roteiro ninguém lhe mostrou. Quem ganha com o ruído? Quem vive do ruído. Siga o orçamento do Pentágono, das agências de inteligência, dos think tanks patrocinados pelas empreiteiras de guerra, e a dúvida se dissipa.
Quer dizer, o regime dos aiatolás é tudo o que se pode imaginar de pior em termos de liberdade individual, propriedade e dignidade humana, isto não se discute. Mas daí a fingir que sanções genéricas, bombardeios cirúrgicos e conversas de fachada vão derrubar teocracia é ignorar o que cinquenta anos mostraram com clareza cristalina: intervenção externa fortalece o discurso interno do regime, empobrece o iraniano comum, enriquece os intermediários do contrabando e produz, ao fim, um país ainda mais fechado e ainda mais hostil. Toda intervenção gera distorção, toda distorção gera pretexto para nova intervenção, e assim se paga eternamente a conta de erros que ninguém quer auditar.
O que não se vê, e raramente alguém mostra, é o custo de oportunidade dessa política externa de palanque. Cada dólar queimado em projeção imperial é um dólar que não virou capital produtivo, não reduziu imposto, não ficou no bolso de quem trabalhou para ganhá-lo. O emprego na base militar no Golfo é visível, o jovem americano em uniforme posando para foto é visível, mas os milhões de trocas voluntárias que não aconteceram porque a poupança nacional foi convertida em munição e lobby permanecem invisíveis. E é exatamente nessa invisibilidade que o esquema prospera.
Me diz uma coisa, por que justamente agora o anúncio? Porque política externa é o último refúgio do governante acuado em política interna. Quando a inflação aperta, quando a dívida escancara, quando o eleitorado começa a somar dois mais dois, nada como um inimigo externo para reorganizar a narrativa. O problema é que o inimigo, desta vez, não leu o roteiro e recusou o papel. Teerã sabe que aceitar uma reunião sem concessão prévia seria entregar de graça o troféu que o outro lado precisa exibir. E assim a farsa desmorona antes do primeiro ato.
Sobra, ao observador honesto, a constatação de que impérios em decadência falam cada vez mais alto justamente quando têm cada vez menos a oferecer. O dólar perde poder, a indústria esvazia, a coesão interna racha, e a resposta é sempre a mesma: mais gasto militar, mais intervenção, mais teatro. É o caminho pelo qual toda potência hegemônica já desceu, e ninguém desceu por acaso. Desceu porque acreditou que podia comprar, no exterior, a legitimidade que perdia em casa.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.