A delegação iraniana desembarcou em Islamabad com um plano de dez pontos, um porta-voz treinado para soar razoável e a frase que deveria ser o título honesto de qualquer cobertura deste evento: "temos boa vontade, mas não temos confiança." Isso não é diplomacia. Isso é a descrição clínica de duas potências que chegaram à mesa porque a alternativa custava mais caro do que sentar, e não por nenhuma outra razão. Quem já assistiu a este roteiro antes, e qualquer pessoa com memória funcional assistiu, sabe que a terminologia muda, os mediadores trocam de país, os comunicados ficam mais sofisticados, mas o jogo permanece idêntico: ambos os lados negociam para não ceder, e o mundo assiste torcendo para que a farsa dure o suficiente para que o preço do barril não exploda antes das eleições de alguém.

O Paquistão foi escolhido como mediador porque Omã já tinha feito a parte anterior do trabalho e porque Islamabad tem a vantagem de não ser nenhuma das partes em conflito direto, ao mesmo tempo que tem o interesse concreto de manter a região minimamente estável. Isso é o que passa por "comunidade internacional" hoje: países sem conflito imediato atuando como tampão entre países que têm. O detalhe que a cobertura gentil tende a omitir é que o Paquistão pediu ao Irã que abrisse o Estreito de Ormuz durante duas semanas como gesto de boa vontade. Repita isso em voz alta. O gesto simbólico de paz que foi pedido ao Irã foi liberar a passagem de petróleo por duas semanas. Quando o símbolo da paz é o fluxo de hidrocarbonetos, você não está mais cobrindo diplomacia, está cobrindo logística de commodities com vocabulário de relações exteriores.

O Estreito de Ormuz é o ponto de estrangulamento por onde passa algo próximo a vinte por cento de todo o petróleo comercializado no planeta. Quem controla a narrativa sobre quem controla o estreito controla, em última instância, uma alavanca sobre a economia global que nenhum banco central, nenhum fundo soberano e nenhum comunicado do G7 consegue substituir. Quando o negociador iraniano fala em "iniciativas para demonstrar boa vontade", o que ele está descrevendo, em tradução direta, é a concessão temporária do controle sobre essa alavanca. E quando Trump chama o plano de dez pontos de "base trabalhável para negociações", o que ele está dizendo, também em tradução direta, é que os termos para a devolução parcial dessa alavanca estão dentro do que Washington consegue vender para seu eleitorado sem parecer que capitulou. A questão nuclear, com todo o seu peso dramático e cobertura telegênica, é o palco. O petróleo é o roteiro.

Há uma ironia de proporções históricas no fato de que os Estados Unidos, após décadas impondo sanções que destruíram o poder de compra da população iraniana comum sem nunca deslocar o regime, agora se sentam em Islamabad e negociam com o mesmo regime, sobre os mesmos termos nucleares que já foram negociados em 2015 e depois abandonados em 2018. A população iraniana ficou mais pobre. O regime ficou. As centrífugas continuaram girando. E os negociadores voltaram para a mesa. Se isso não é a demonstração empírica de que sanções econômicas amplas servem primariamente para punir o povo e fortalecer o Estado que se pretende enfraquecer, nenhuma evidência jamais será suficiente. O custo visível foi suportado pelos iranenses da rua. O benefício invisível foi capturado pelos que controlam o acesso ao estreito.

A análise da Arms Control Association, publicada no mês passado, concluiu que os negociadores americanos chegaram às conversas tecnicamente mal preparados para tratar de questões nucleares com seriedade. Isso soa como crítica. Na realidade, é uma descrição do que acontece quando a função da negociação não é resolver o problema técnico, mas gerenciar o problema político. Negociadores bem preparados produzem acordos sólidos que vinculam governos futuros e criam precedentes inconvenientes. Negociadores mal preparados produzem declarações de intenção que permitem a todas as partes anunciar progresso sem abrir mão de nada de substantivo. Para quem precisa de titulares favoráveis antes do ciclo de notícias seguinte, o segundo resultado é imensamente mais útil que o primeiro.

No fim, o que Islamabad produziu por enquanto é um cessar-fogo de duas semanas, um plano iraniano de dez pontos que ainda aguarda resposta substantiva e um negociador dizendo publicamente que seu país tem boa vontade mas não tem confiança. O Brasil cobrirá isso como "avanço diplomático". A mídia especializada cobrirá como "fase de especialistas". E o preço do barril reagirá a cada comunicado como se os fundamentos reais tivessem mudado. O Estreito de Ormuz continuará sendo o que sempre foi: a prova de que, em geopolítica, quem controla a passagem não precisa controlar o discurso, porque o discurso inteiro se organiza ao redor da passagem de qualquer jeito.

Com informações do Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.