Um general iraniano aparece na televisão estatal, ajusta o turbante, e informa ao planeta que o Estreito de Ormuz está sob controle estrito de Teerã. A frase é curta, o recado é longo. Por aquele funil de vinte e um quilômetros de largura passam cerca de vinte milhões de barris de petróleo por dia, mais gás natural liquefeito do que qualquer outra rota marítima do mundo, e boa parte do combustível que move a Ásia industrial. O Irã não precisa afundar navio nenhum para estrangular a economia global. Basta sugerir que talvez, quem sabe, se o humor amanhecer ruim, a passagem pode complicar. O prêmio de risco no barril já faz o resto.
Aqui começa a parte que os analistas de terno não gostam de explicar. A dependência ocidental daquele corredor não é acidente geográfico, é consequência direta de décadas de política energética desenhada por burocratas que decidiram, em gabinetes climatizados, que combustível fóssil doméstico é pecado e que dependência de regimes teocráticos é virtude multilateral. Fechou-se poço no Texas, cancelou-se oleoduto no Canadá, demonizou-se exploração no Mar do Norte, subsidiou-se painel solar fabricado na China com cobalto africano extraído por criança, e agora descobre-se, espantados, que um sujeito de turbante em Teerã tem a mão no registro do chuveiro energético da civilização ocidental. Quer dizer, o resultado era previsível para qualquer um que soubesse ler um mapa.
Olha, siga o dinheiro e o enredo fica ainda mais interessante. Sanção contra o Irã existe há quase meio século, e o regime segue vendendo petróleo, financiando milícia no Líbano, armando hutis no Iêmen, bancando operação no Iraque e enriquecendo urânio como quem coleciona selo. Se a sanção funcionasse, o aiatolá estaria vendendo tapete em bazar. Não está. Está ditando preço de barril e pauta de reunião no Conselho de Segurança. A conclusão óbvia, que nenhum diplomata repete em microfone, é que a sanção foi desenhada para parecer dura sem ser eficaz, porque há interesses cruzados demais, bancos europeus demais, intermediários asiáticos demais, consultoria americana demais faturando na brecha entre o discurso oficial e a prática real.
Enquanto isso, o contribuinte brasileiro assiste à novela achando que não tem ingresso nessa sessão. Tem. O barril sobe em Ormuz, a gasolina sobe em Pirituba, o frete encarece, o tomate vira artigo de luxo, e o sujeito que mora em Taboão da Serra paga mais caro no botijão sem nunca ter ouvido falar do estreito que está apertando seu bolso. O preço da energia é o preço de tudo, porque tudo se move, se refrigera, se cozinha e se produz com energia. Quando a torneira é controlada por um clérigo com míssil balístico, a soberania energética deixa de ser jargão acadêmico e vira questão de sobrevivência doméstica.
Me diz uma coisa, qual foi a última vez que você ouviu um ministro brasileiro discutir seriamente exploração do pré-sal, independência energética, autossuficiência em fertilizantes, sem soar como se estivesse pedindo desculpas a uma ONG europeia? O Brasil está sentado sobre uma das maiores reservas offshore do planeta, tem potencial nuclear parado desde os anos oitenta, tem matriz hidrelétrica que metade do mundo inveja, e ainda assim importa diesel, importa gás, importa adubo, importa dependência. Não por falta de recurso natural, por excesso de recurso político mal empregado, empresa estatal capturada, regulação desenhada para travar investimento e ideologia ambientalista importada que trata petróleo como substância demoníaca.
O que se vê é a manchete do estreito. O que não se vê é a cadeia inteira de decisões erradas que transformou uma civilização tecnológica avançada em refém de um regime medieval que ainda apedreja mulher por causa de cabelo descoberto. Enquanto o Ocidente fingir que sustentabilidade é decreto e que segurança energética é detalhe operacional, o aiatolá continuará com a mão no registro, e nós continuaremos pagando a conta no caixa, com juros e correção, sem direito a reclamação no procon.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.