Olha, faz menos de trinta dias que a Marinha americana anunciou, com aquela solenidade que só Washington consegue produzir, uma linha de bloqueio para sufocar as exportações iranianas de hidrocarbonetos. A coletiva de imprensa foi linda, os porta-vozes engravatados, os mapas cheios de setas vermelhas, o tom grave de quem está prestes a fazer história. Pois bem, o primeiro navio que decidiu testar o teatro passou pela tal linha como quem atravessa a faixa de pedestre num feriado. Carregado de GLP iraniano, com histórico documentado de transportar carga persa, o cargueiro seguiu rota sem ser molestado. O império declarou guerra ao mar e o mar deu de ombros.

Quer dizer, isso aqui não é incompetência, é cálculo. Bloqueio de verdade exige fragatas posicionadas, regras de engajamento claras, vontade política de afundar navio neutro se preciso for, e disposição para arcar com a retaliação no preço internacional do barril. Nada disso existe. O que existe é um anúncio para consumo doméstico, dirigido ao eleitor que assiste televisão a cabo no Kansas e precisa sentir que a América ainda manda no mundo. O navio que passou não foi descuido de oficial de plantão; foi a constatação operacional de que a ordem era para a câmera, não para o radar.

E quando a gente puxa o fio do novelo, a coisa fica mais saborosa. Quem ganha com bloqueio anunciado e não executado? Em primeiro lugar, o próprio Irã, que continua vendendo a preço descontado para compradores asiáticos felizes da vida com o desconto geopolítico. Em segundo, os intermediários, as empresas de fachada em Hong Kong, os armadores gregos com bandeira de Libéria, os bancos que processam liquidações em moedas alternativas longe do alcance de Washington. Em terceiro, o complexo industrial militar americano, que cada anúncio de bloqueio justifica mais um destroyer, mais um porta-aviões, mais uma rubrica orçamentária. Quem perde? O contribuinte que paga a Marinha que não bloqueia, o consumidor que paga o gás mais caro pelo prêmio de risco inventado, e a credibilidade do dólar como moeda de comércio energético, que vai derretendo a cada episódio destes.

Há uma lição antiga aqui que os burocratas do Pentágono parecem ter esquecido entre uma apresentação de PowerPoint e outra. Império que ameaça e não cumpre treina o adversário a ignorar a próxima ameaça. Roma sabia disso, Bizâncio aprendeu na pele, e qualquer general que tenha lido três páginas sobre as guerras púnicas entende que sanção sem dente é convite à transgressão sistemática. Cada navio que cruza a linha sem consequência é um curso prático de geopolítica para Teerã, Pequim, Moscou e qualquer outro ator que estava em dúvida sobre o quanto o tio Sam ainda morde. A resposta veio: morde só na coletiva.

O fundo do problema é que o intervencionismo geopolítico funciona pela mesma lógica do intervencionismo econômico. O governo declara um controle de preços e o mercado paralelo nasce no dia seguinte. O governo declara um bloqueio naval e a frota fantasma já estava ancorada esperando o anúncio. A diferença entre o burocrata que tenta fixar o preço do feijão e o almirante que tenta fixar a rota do petróleo iraniano é puramente estética; ambos estão tentando dar ordem ao oceano com canetada, e o oceano, esse velho anarquista, vai onde a corrente leva. A pretensão de comandar fluxos globais por decreto é a mesma soberba que produziu cada falência de planejamento central da história moderna, só que agora vestida de farda e com orçamento de trilhão de dólares.

Resta a pergunta que ninguém em Washington quer responder em alto e bom som. Se a Marinha mais cara do planeta não consegue, ou não quer, parar um único cargueiro de GLP, qual é exatamente o produto que o contribuinte americano está comprando ao financiar onze grupos de porta-aviões? A resposta honesta seria desconfortável demais para a temporada eleitoral, então segue o teatro, segue o navio, segue a conta.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.