A cena se repete com a fidelidade de um ritual pagão: diplomatas americanos e iranianos sentam numa sala, trocam posições que já conhecem de cor, anunciam "progresso cauteloso" para as câmeras e voltam para casa com o problema intacto. O fim de semana passado não foi diferente. Vinte anos de negociação produziram um arquivo gigantesco de memorandos, declarações conjuntas e cartas de intenção que não impediram o Irã de acumular urânio enriquecido suficiente para múltiplas ogivas. Isso não é falha diplomática. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar.

Pense bem no que aconteceu nessas duas décadas. Em 2015, um acordo histórico foi assinado com pompa e champanhe. Três anos depois, Washington se retirou unilateralmente, impôs sanções máximas e prometeu que a pressão forçaria uma capitulação iraniana em meses. Não capitulou. Depois vieram mais rodadas, mais textos circulando entre delegações, mais "linha vermelhas" e mais prazo estendido. O Irã, que em 2003 tinha centrifugas contadas nas mãos, opera hoje instalações que nenhuma sanção conseguiu fechar. A pressão máxima foi uma receita para o oposto do que prometia.

Quem paga a conta desse espetáculo? Não os regimes, que têm mecanismos próprios para sobreviver às sanções, importar pelo mercado cinza e repassar o custo para a população. O iraniano comum é que ficou sem medicamento, sem peça de reposição, com moeda destruída e inflação de três dígitos. A classe dirigente em Teerã, por sua vez, usou exatamente essas sanções como argumento interno para consolidar poder, suprimir dissidência e pintar o Ocidente como inimigo existencial. Sanções amplas contra Estados autoritários são, historicamente, o melhor presente que você pode dar ao autoritarismo: fortalecem quem controla os recursos escassos e destroem quem depende do mercado para sobreviver.

Quer dizer, do lado americano a lógica não é mais honrosa. O establishment de política externa de Washington tem na "crise iraniana" uma fonte inesgotável de orçamento, de cargos, de conferências internacionais, de contratos de defesa e de relevância institucional. Um problema resolvido é um problema que não financia mais ninguém. O complexo diplomático-industrial tem tanto interesse na perpetuação do impasse quanto os revolucionários em Teerã. Quando você olha para quem lucra com vinte anos de não-resolução, a lista é longa e bem remunerada, e nenhum nome nessa lista pertence a um iraniano comum ou a um contribuinte americano.

O problema estrutural é mais fundo. O Estado, qualquer Estado, não processa bem problemas que exigem renúncia real de poder. Para que um acordo nuclear funcione, Teerã precisa abrir mão de uma capacidade que, do ponto de vista estratégico, é a única coisa que garante que não terá o destino de Saddam Hussein ou Muammar Gaddafi, ambos desarmados, ambos mortos pelo mesmo Ocidente que exigia o desarmamento. A lição é gritante. O Irã aprendeu. E continua enriquecendo urânio enquanto assiste a mais uma rodada de diplomacia performática.

Olha: o maior perigo não é que as negociações falhem desta vez. É que alguém, numa sala em Washington ou Tel Aviv, decida que vinte anos de diplomacia foram tempo suficiente e que chegou a hora de tentar outra coisa. Guerras começam exatamente quando as ilusões diplomáticas finalmente se esgotam e os que sempre preferiram a força ficam sem o argumento de que "demos uma chance ao diálogo". O imbróglio nuclear iraniano não está caminhando para um acordo. Está sendo preparado para uma escalada. E a conta, como sempre, será apresentada a quem não estava na sala.

Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.