Olha, toda vez que uma empresa de telecom divulga resultados e os analistas fingem que o assunto é EBITDA, margem operacional ou guidance de receita, saiba que há um elefante na sala que ninguém quer nomear. No caso da Iridium, o elefante se chama espectro. Aquela faixa de frequência na banda L, invisível a olho nu, que um dia foi alocada por decreto regulatório e hoje vale bilhões justamente porque o governo decidiu, canetada por canetada, que ninguém mais poderia usá-la sem permissão. O investidor sofisticado sabe disso. Ele não está ali pela engenhosidade dos satélites em órbita baixa, está ali pelo privilégio jurídico que impede qualquer concorrente de transmitir na mesma frequência. É renda de monopólio com maquiagem tecnológica.
Quer dizer, o espectro eletromagnético é o exemplo didático perfeito daquilo que os manuais de economia política chamam, com certa delicadeza, de recurso escasso artificialmente. Ele não é escasso como ouro ou petróleo; é escasso porque o Estado decretou que é. E uma vez decretada a escassez, o licenciamento vira o ativo mais valioso do balanço. A empresa que consegue um pedaço da banda L, da banda C ou de qualquer outra faixa cobiçada não precisa mais produzir valor genuíno; basta cobrar pedágio de quem quiser usar o que deveria ser tecnicamente disponível a qualquer um com antena e engenharia. É o que se vê: satélites bonitos, cobertura global, receita recorrente. O que não se vê: o concorrente que jamais nasceu porque não conseguiu licença, o preço mais baixo que o consumidor jamais pagou, a inovação que ficou na gaveta porque o incumbente tem a frequência trancada a sete chaves regulatórias.
Me diz uma coisa, por que os investidores estão tão animados justamente com a palavra monetização? Porque eles entenderam algo que os populistas jamais entenderão: na economia moderna, o lucro mais gordo não está em produzir, está em ser autorizado. A Iridium pode licenciar, arrendar, fatiar e revender acesso à frequência, e cada operação dessas tem margem de software, porque o custo marginal de deixar outro usar a mesma onda é rigorosamente zero. Isso explica por que uma empresa que já passou por concordata em 1999, que tecnicamente quase derreteu, hoje é cortejada como ativo premium. Não é que a tecnologia ficou melhor, é que a renda do privilégio ficou mais cara à medida que IoT, aviação, navegação e defesa passaram a depender dela.
E aqui entra o ponto desconfortável que ninguém no CNBC vai dizer em voz alta. O espectro foi originalmente distribuído em leilões que beneficiaram operadores já bem relacionados com Washington, com FCC, com os lobbies certos na hora certa. Aquele leilão dos anos noventa que decidiu quem ficaria com o quê não foi um concurso meritocrático de engenheiros brilhantes; foi um arranjo político onde os vencedores escreveram, junto com os reguladores, as regras do jogo que venceriam. Siga o dinheiro e você encontra o mesmo padrão de sempre: quem entrou primeiro, com os advogados certos, hoje colhe aluguel eterno de um bem que, em última instância, pertence ao ar que todos respiramos. O americano médio paga mais caro no plano de celular, no rastreamento de carga, no GPS de emergência, e não faz ideia de que parte dessa conta é pedágio de licença.
O mais irônico é que o mercado chama isso de inovação. Quando a Iridium anuncia parcerias para monetizar a banda L com novos protocolos de conectividade direta ao celular, os jornais correm para elogiar a visão empreendedora. Empreendedorismo genuíno seria abrir o espectro à competição, deixar que qualquer um com tecnologia e capital entrasse no jogo, e ver quem entrega conectividade global mais barata e confiável. O que existe é o contrário: um clube fechado onde os membros se gabam de estarem ampliando o próprio portfólio de rendas enquanto o regulador aplaude a eficiência do sistema. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais sofisticada, aquela em que nem sequer o consumidor percebe que está pagando a taxa de proteção, porque ela vem embutida no preço de tudo.
No fim das contas, o resultado trimestral da Iridium é apenas o sintoma visível de uma doença maior. A verdadeira pergunta não é se a empresa vai bater o consenso de analistas; é por que uma faixa de frequência eletromagnética, que é física pura, virou propriedade privada perpétua de poucos, com aval do mesmo governo que jura proteger a livre concorrência. Enquanto essa pergunta não for feita em alto e bom som, continuaremos celebrando como conquista empresarial aquilo que é, na raiz, privilégio regulatório transformado em dividendo. O satélite voa; o monopólio permanece firme no chão.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.