O índice S&P 500 está pegando fogo de novo, e a explicação oficial é tocante na sua simplicidade: a guerra no Irã parece ter passado do pior, então os traders correram em manada para comprar Broadcom, Nvidia e o restante do panteão da inteligência artificial. Quer dizer, supostamente o mundo ficou mais seguro, e a resposta racional foi empurrar para cima papéis que já negociavam a múltiplos que fariam corar um operador da bolha das pontocom em 1999. Olha, ninguém precisa ser gênio para perceber que a narrativa não fecha. O que está acontecendo não tem relação alguma com paz no Oriente Médio. É liquidez procurando lugar para queimar, e encontrou o de sempre.

Me diz uma coisa, há quanto tempo o mercado americano funciona como termômetro de fundamentos? A resposta honesta é: desde nunca, na geração presente. O que se observa é o efeito tardio de mais de uma década de juros artificialmente baixos, balanços de bancos centrais inchados como bezerros engordados, e uma classe inteira de gestores que aprendeu a investir num ambiente onde dinheiro não tem custo. Quando o dinheiro não custa nada, ele vai para onde a moda mandar. E a moda atual atende pelo nome de inteligência artificial, três letras que viraram a senha mágica para justificar qualquer múltiplo, qualquer projeção, qualquer absurdo de avaliação.

O que ninguém quer enxergar é que essa euforia tem dono. Siga o caminho do dinheiro e você encontrará exatamente os mesmos suspeitos: os fundos que se beneficiam de comissões sobre ativos sob gestão inflados, os bancos de investimento que ganham nas IPOs e nas emissões secundárias, os executivos cujas opções acionárias dependem do papel subir, e os formadores de opinião que vendem cursos, newsletters e livros sobre como surfar a próxima onda. Para cada Broadcom voando, há um exército de intermediários extraindo taxa de quem entrou tarde. O sujeito que coloca a poupança na ponta final dessa corrente é o pagador da festa, e ele nunca recebe convite para sair antes da música parar.

Existe uma palavra técnica para o fenômeno em curso, e ela não é prosperidade, é descoordenação. Quando os preços deixam de refletir escassez real e passam a refletir expectativa de que outro idiota pagará mais caro amanhã, o sistema de sinalização do mercado quebra. Capital flui para onde não deveria, projetos sem viabilidade econômica recebem financiamento generoso, empresas zumbis sobrevivem por anos consumindo poupança alheia, e quando a correção chega, ela chega de uma vez. Não é castigo divino, é matemática. Toda expansão monetária artificial termina em ajuste, e o ajuste é sempre mais doloroso quanto mais a festa se prolongou.

O detalhe brasileiro nessa história é que o Banco Central daqui ainda finge que é diferente, mantendo Selic em patamar respeitável enquanto o Tesouro torra qualquer credibilidade fiscal com gastança eleitoreira disfarçada de programa social. O investidor brasileiro que olha o gráfico do Nasdaq e sente inveja deveria, antes, perguntar quem está pagando aquela festa lá fora e por quanto tempo mais a impressora americana consegue rodar antes que a confiança no dólar comece a rachar de verdade. A resposta não é confortável, e por isso quase ninguém faz a pergunta. É mais fácil comprar Nvidia.

O que se chama hoje de melt-up é o estágio final de um ciclo que começou com juro zero, passou por trilhões em estímulo durante a pandemia, e agora produz a sua exuberância terminal num punhado de ações que carregam o índice inteiro nas costas. Quando seis empresas explicam quase todo o ganho de um mercado de quinhentas, isso não é mercado saudável, é concentração de risco fantasiada de tendência. A festa termina sempre do mesmo jeito: com os últimos a chegar sendo os primeiros a perder, enquanto quem armou o esquema já saiu pela porta dos fundos contando o dinheiro alheio.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.