Dois projéteis saíram do território libanês em direção a Israel e foram abatidos no ar, com um alvo aéreo despencando perto da fronteira sem ferir ninguém. A notícia, embrulhada na linguagem asséptica das agências, é tratada como ocorrência meteorológica, como se mísseis caíssem do céu por força da natureza e não por decisão deliberada de homens armados financiados por governos específicos com endereço, conta bancária e propósito.
Olha, todo mundo finge não saber de onde vem o dinheiro, de onde vem o armamento, de onde vem a doutrina que faz um sujeito acordar de manhã decidido a lançar um projétil contra civis do outro lado da cerca. Mas o dinheiro deixa rastro. O rastro passa por Teerã, passa por intermediários que recebem por canais oficiais e oficiosos, passa por organizações que a comunidade internacional trata com luvas de pelica porque dar nome às coisas atrapalha a próxima rodada de negociações em Genebra. Quer dizer, o teatro diplomático precisa do conflito permanente para justificar sua própria existência burocrática.
A ficção fundamental do arranjo atual é a de que o Estado libanês existe. Não existe. O que existe é um território onde uma milícia estrangeira, financiada e armada por uma teocracia a milhares de quilômetros, mantém arsenal próprio, política externa própria e poder de iniciar guerra sem consultar parlamento nenhum. Chamar isso de país soberano é o mesmo tipo de fantasia administrativa que faz comitês internacionais tratarem cleptocracias como repúblicas e juntas militares como democracias em transição. O papel timbrado mente; os mísseis dizem a verdade.
Me diz uma coisa: quantos bilhões já foram despejados em programas de ajuda humanitária, missões de paz e iniciativas de reconstrução naquela região nos últimos quarenta anos? E qual foi o resultado concreto além de engordar ONGs, sustentar burocratas vitalícios e financiar indiretamente as próprias estruturas que produzem os projéteis? A indústria do conflito gerenciado é o negócio mais lucrativo do século vinte e um, e tem clientela cativa em todos os ministérios das relações exteriores do mundo civilizado.
O que se vê é o projétil interceptado, o comunicado militar, a manchete morna no fim do dia. O que não se vê é a infraestrutura inteira que tornou aquele projétil possível, a cadeia logística que atravessa fronteiras, os subsídios disfarçados, os silêncios convenientes das chancelarias ocidentais que preferem manter a ficção a confrontar o problema. Cada míssil que cai é a prestação de contas de uma política externa global que escolheu administrar o câncer em vez de extirpá-lo, porque administrar gera reuniões, cargos, viagens e relatórios; extirpar gera apenas paz, e paz é um produto sem mercado para a burocracia internacional.
Enquanto a imprensa global tratar o lançamento de projéteis contra civis como fenômeno climático, sem agentes, sem financiadores, sem responsáveis, a próxima manchete já está escrita. Só falta a data.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.