Apareceu nesta semana, num cantinho quase invisível da web chamado Bearblog, um manifesto curto, quase um bilhete, intitulado It is time to build a new internet. Quatro pontos no Hacker News, zero comentários, nenhuma repercussão. E no entanto, raramente um texto de tão pouca audiência disse algo tão verdadeiro. O autor, um sujeito que assina como Mr. Market, constata o que qualquer usuário honesto já percebeu faz tempo, mas que a indústria finge não ver: a internet acabou. Não a infraestrutura, claro. Os cabos submarinos continuam transportando seus pacotes obedientes. Acabou o espírito, a promessa, aquela coisa estranha e luminosa que existiu entre 1995 e mais ou menos 2010, quando a rede ainda parecia uma praça pública e não um condomínio fechado com porteiro armado.

O diagnóstico é simples e por isso mesmo intolerável para os que vivem de complicar. Cinco ou seis empresas californianas absorveram o que antes eram milhões de pequenos sites, blogs, fóruns, comunidades. Engoliram tudo, mastigaram, e devolveram em forma de feed algorítmico calibrado para vender anúncio e modelar comportamento. O que se chama hoje de internet é, na prática, uma meia dúzia de aplicativos onde o usuário rola o dedo para cima esperando dopamina e recebendo propaganda de emagrecedor. A web aberta, aquela dos hiperlinks que levavam a lugares inesperados, foi substituída por jardins murados onde o passeio é guiado e a saída cobra pedágio.

E aqui entra a parte que ninguém quer encarar: isso não foi acidente de percurso, foi projeto. A centralização não caiu do céu nem brotou da lógica fria do mercado. Houve decisões, houve dinheiro, houve estímulo regulatório explícito de governos que descobriram ser muito mais cômodo pressionar seis CEOs do que perseguir seis milhões de webmasters anônimos. O conluio entre big tech e burocracia estatal não é teoria conspiratória, é organograma. Quando uma agência federal liga para um departamento de confiança e segurança pedindo que se silencie tal médico, tal jornalista, tal presidente eleito, não há mais internet, há um Index Librorum Prohibitorum em servidor de nuvem.

O autor do manifesto propõe o caminho menos glamoroso e por isso mesmo o único que funciona: reconstruir tijolo por tijolo, com protocolos abertos, software livre, hospedagem própria, federação em vez de plataforma, criptografia ponta a ponta como padrão e não como recurso premium. Nada disso é novidade técnica. As ferramentas existem, estão maduras, são gratuitas. O que falta é a vontade cultural de abandonar o conforto envenenado dos feeds infinitos e voltar a habitar uma rede onde o usuário é dono do que escreve, do que lê e de para quem manda. Coisa de monge copista, dirão os modernos. Pois é exatamente disso que se trata: foram monges copistas que salvaram a civilização ocidental enquanto Roma desabava, e serão equivalentes digitais que vão salvar a próxima.

O detalhe técnico que torna tudo isso urgente é a inteligência artificial. Os modelos generativos já estão sufocando os mecanismos de busca com lixo sintético, e em pouco tempo será impossível distinguir um texto humano de uma alucinação probabilística treinada em outras alucinações probabilísticas. A web aberta, que sempre foi a matéria-prima desses modelos, está sendo consumida pelos próprios modelos numa espiral autofágica. Quem construir agora pequenas ilhas autenticamente humanas, verificáveis, federadas, vai ser dono do bem mais escasso da próxima década: conteúdo real, escrito por gente, lido por gente, sem intermediação algorítmica. O resto vai virar pasto digital, esterco de pixels gerados para serem clicados por bots que vendem para outros bots.

A pergunta que fica não é se vale a pena reconstruir, é quem terá coragem. Reconstruir significa abrir mão da audiência fácil, do alcance instantâneo, da metrificação imediata da vaidade. Significa hospedar o próprio servidor, manter o próprio domínio, escrever sem saber se alguém lerá, conversar em fóruns de quinze pessoas em vez de gritar para audiências de quinze milhões. Significa, em suma, trocar a celebridade pela vida real. Para uma geração criada na economia da atenção, isso soa como penitência. E é. Mas toda revolução civilizacional começou como penitência de uns poucos teimosos que recusaram o conforto do seu tempo. A internet que vem aí não será construída pelos que estão satisfeitos com a que existe.

Com informações da Hacker News. A análise e opinião são do O Algoz.