A cena se repete com a regularidade de um relógio quebrado que sempre marca a mesma hora. Roma anuncia, com ar de estadista compadecido, que vai prorrogar o corte de impostos sobre combustíveis em razão da "crise energética". O cidadão deve agradecer. O caminhoneiro deve aplaudir. A imprensa deve correr para registrar o gesto humanitário do Palazzo Chigi. E ninguém, absolutamente ninguém na transmissão oficial, vai lembrar de perguntar a pergunta óbvia, aquela que uma criança de oito anos faria sem treinamento ideológico nenhum: se o imposto pesa tanto a ponto de precisar ser cortado em emergência, por que ele existe no tamanho em que existe?

Olha, a Itália tem uma das cargas tributárias mais brutais da Europa sobre o litro de combustível. Mais da metade do que o motorista paga na bomba é tributo, accise acumulada desde a guerra da Etiópia, desde a crise de Suez, desde o terremoto do Friuli, desde o resgate do Banco Etruria. Cada catástrofe gerou um impostinho "temporário" que, milagrosamente, nunca foi embora. E agora o mesmo Estado que empilhou décadas de tributação emergencial vem, com cara de bom samaritano, oferecer um desconto parcial e provisório sobre o confisco que ele próprio institucionalizou. É o sequestrador soltando a corda do refém um centímetro e pedindo para ser chamado de generoso.

Quer dizer, a tal "crise energética" não caiu do céu. Ela foi cuidadosamente fabricada por décadas de política industrial dirigista, por uma matriz que abandonou o nuclear depois de um plebiscito histérico em 1987, por subsídios desviados para fontes politicamente cosméticas, por dependência voluntária do gás russo enquanto Bruxelas declamava virtude moral, por uma transição verde imposta de cima sem que o cidadão tivesse direito de votar em quanto está disposto a pagar pelo aquecimento da própria casa. Toda escolha errada teve um nome, um cargo e um salário pago com dinheiro de quem hoje precisa do "alívio" no posto de gasolina.

E há uma engenharia mais sutil no anúncio, que ninguém comenta porque comentá-la atrapalha o teatro. Cortar imposto sobre combustível é o tipo de bondade que custa caríssimo ao Tesouro, e Tesouro algum corta gastos para compensar; ele simplesmente emite mais dívida ou, na ponta da cadeia, força o banco central a engolir mais papel. Ou seja, o italiano paga menos accise hoje e paga mais inflação amanhã. O imposto não foi reduzido, foi terceirizado. Saiu da bomba e entrou no pão, no aluguel, na pizza, no espresso. A conta é a mesma, só muda de bolso, e o bolso final é sempre o mesmo, o do sujeito que produz alguma coisa real e que não tem assessor de imprensa para anunciar sua generosidade.

Há ainda uma dimensão quase cômica nisso tudo, se a comédia não fosse paga com o suor alheio. O governo se posiciona como protetor do consumidor contra um inimigo abstrato chamado "preço alto", como se o preço fosse um vilão autônomo que apareceu nas ruas de Milão sem ser convidado. Preço é informação, é o termômetro que indica quanta escassez existe no sistema. Quando o Estado decide manipular esse termômetro com tesoura fiscal, ele não cura a febre, apenas quebra o instrumento que diagnosticava o problema. O motorista compra combustível mais barato hoje, consome um pouco mais do que consumiria, e amanhã descobre que a fila no posto ficou maior e o suprimento ficou menor. Isso não é solidariedade, é anestesia em paciente com hemorragia interna.

Me diz uma coisa, então. Quem ganha de verdade com essa prorrogação? Não é o trabalhador que dirige para Bergamo todos os dias, esse vai sentir o alívio durante alguns meses e depois voltará a apanhar quando o decreto vencer e a "necessidade fiscal" exigir o retorno da alíquota cheia, devidamente corrigida pela inflação que o próprio Estado ajudou a fabricar. Quem ganha é o político que carimba o anúncio em ano de pesquisa eleitoral ruim, é o partido que precisa de manchete simpática, é a burocracia que ganhou mais uma justificativa para existir administrando a benesse que ela mesma é a causa de precisar existir. Roma aprendeu uma coisa muito antes de Maquiavel: o súdito agradecido é mais barato de governar do que o súdito que sabe contar. E enquanto ele agradecer, a impressora e a accise continuam de plantão, em turnos alternados, fazendo o mesmo trabalho de sempre.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.