Os seis maiores bancos do país, Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil, BTG e Caixa, fecharam um acordo para garantir o socorro ao BRB, o banquinho estatal do Distrito Federal que andou fazendo trapézio sem rede. Apresentam o arranjo como gesto de solidariedade entre instituições financeiras, uma espécie de bombeiro coletivo apagando o incêndio do vizinho. Olha, quem acredita nessa versão romântica nunca leu um contrato bancário na vida. Não existe banco filantropo. Existe banco que calcula o spread até no abraço.
O que está acontecendo aqui tem nome técnico, mas o nome técnico serve justamente para esconder a coisa. Quando o sistema financeiro inteiro se mobiliza para garantir uma instituição podre, o que se está dizendo, em letras miúdas, é que o risco daquela instituição agora pertence a todo mundo. Se o BRB quebrar de verdade, os seis garantidores acionam o seguro implícito que sempre acompanha esse tipo de operação no Brasil, e esse seguro implícito tem um nome muito conhecido, Banco Central, que por sua vez tem outro nome ainda mais conhecido, contribuinte.
Vale lembrar de onde vem o BRB. É banco público estadual, criatura típica da federação brasileira, fundado para servir de caixa eletrônico do governador da vez, instrumento de patronagem disfarçado de banco comercial. Toda vez que um desses entra em crise, repete-se o mesmo ritual, primeiro nega-se o problema, depois minimiza, depois aparece uma operação estruturada com nomes pomposos, e no final a fatura chega via inflação, via imposto, via dívida pública que seus netos vão pagar. A engenharia muda, o resultado é sempre o mesmo.
Siga o dinheiro e a história fica clara. Os seis bancos privados e estatais que assinam o socorro não estão fazendo caridade, estão comprando algo. Estão comprando relação política, estão comprando proteção regulatória futura, estão comprando o direito de cobrar a fatura quando precisarem de um favor do governo federal ou do governo do Distrito Federal. Cada centavo que entra como garantia hoje vai sair multiplicado amanhã em concessão, em licitação direcionada, em norma do Banco Central que beneficia justamente o cartel que se mobilizou. O capitalismo de compadrio brasileiro funciona assim, e funciona tão bem que ninguém mais nota.
E aqui está o que ninguém quer enxergar, porque é justamente o que está embaixo do nariz de todos. Banco bom não quebra porque mercado bom o disciplina. Banco estatal vive porque o estado o protege, e o estado o protege porque o estado precisa dele para sobreviver politicamente. A relação é incestuosa, e o filho dessa relação é sempre o pagador de impostos, que financia uma instituição que ele jamais escolheria como cliente se tivesse a opção real de escolher. Falam em estabilidade do sistema, mas estabilidade de quê. A estabilidade de um arranjo que privatiza o lucro quando vai bem e socializa o prejuízo quando vai mal não é estabilidade, é parasitismo institucionalizado.
Reparem na coreografia. Ninguém votou nisso, ninguém debateu isso, ninguém perguntou ao cidadão de Brasília, muito menos ao cidadão de Rio Branco, se ele topa ser fiador de um banco que ele nunca usou. A decisão se materializa nos bastidores, sai em nota, vira manchete amena, e segue a vida. É assim que se constrói o despotismo suave, não com tanques na rua, mas com comunicados de mercado num domingo à noite. O cidadão dorme livre e acorda mais pobre, sem entender exatamente como.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.