Mais um memorando de entendimento, mais uma fábrica de baterias anunciada com pompa no Texas, mais uma manchete vendendo a fantasia de que o capital está fluindo livremente para onde a eficiência manda. Olha, quem acredita nisso ainda não percebeu que a geografia industrial americana dos últimos cinco anos não é desenhada por engenheiros nem por consumidores, é desenhada por gabinetes em Washington que decidiram, com o dinheiro alheio, que o futuro vai ter cheiro de lítio e selo federal. J-Star e White Group entram nessa fila de contemplados não por terem inventado nada de revolucionário, mas porque aprenderam o idioma certo na hora certa: o idioma dos créditos tributários do Inflation Reduction Act, das isenções estaduais texanas, dos incentivos municipais que transformam pasto barato em chão de fábrica subsidiado.
O Texas, que durante décadas vendeu a narrativa de paraíso do livre mercado, hoje compete com a Geórgia e com o Tennessee numa leilão reverso de favores fiscais, e quem ganha não é o estado que oferece menos imposto a todos, é o que oferece mais isenção a alguns. Repare na perversidade do arranjo: o pequeno empresário texano que abre uma oficina mecânica paga o imposto cheio, enquanto o conglomerado coreano-americano que assina MOU com sobrenome de marketing recebe pacote de benefícios que nenhum cidadão comum sequer pode pleitear. Isto não é capitalismo, isto é mercantilismo de século dezessete reembrulhado em PowerPoint corporativo, e quem chama isso de "atrair investimento" está apenas dando nome bonito para o que sempre foi pilhagem legalizada com simpatia bipartidária.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. O contribuinte federal financia o crédito de até quarenta e cinco dólares por kilowatt-hora produzido sob a Section 45X, o contribuinte estadual financia abatimentos de propriedade que duram décadas, o contribuinte municipal financia infraestrutura customizada para a planta. No fim, a empresa privada apresenta lucro privado, mas o capital de risco que viabilizou o empreendimento foi público, compulsório e silencioso. Quando der certo, o brinde vai para os acionistas; quando der errado, e a história das fábricas-fantasma de baterias na América já mostra que dá errado com frequência embaraçosa, a fatura volta para quem nunca assinou contrato algum. É o velho truque de privatizar o lucro e socializar a quebra, e cada geração de político descobre essa fórmula como se fosse novidade.
Existe ainda a camada que ninguém quer discutir, que é a aposta industrial em si. Estamos falando de uma cadeia de baterias cuja viabilidade econômica depende crucialmente de premissas que o mercado livre jamais validou: que o veículo elétrico será massivo apesar do consumidor relutante, que a rede elétrica suportará a carga apesar dos blecautes recorrentes, que o lítio chinês continuará disponível apesar da geopolítica tensa, que o custo do capital permanecerá baixo apesar dos juros altos. Quando todas essas premissas são forçadas por decreto e não testadas pelo preço, o que se constrói não é uma indústria, é um castelo de cartas com selo do Departamento de Energia. E castelos de cartas, quando caem, costumam levar junto os bairros onde foram erguidos.
O mais irônico é o aplauso bipartidário que cerca esses anúncios. A esquerda comemora porque é "transição verde", a direita comemora porque é "emprego americano contra a China", e ninguém comemora pelo motivo certo, que seria a empresa ter ganhado o direito de existir competindo no mercado real, sem muleta fiscal, sem favor regulatório, sem o estado escolhendo vencedores. O que se vê é a fábrica anunciada, os empregos prometidos, o corte de fita marcado para 2027. O que não se vê é a oficina que não nasceu porque o crédito ficou caro, a startup que morreu porque não tinha lobista em Austin, o consumidor que pagou trezentos dólares a mais no carro porque o subsídio inflou a cadeia inteira. A janela quebrada gera trabalho para o vidraceiro, sim, mas empobrece o dono da casa, e nenhuma estatística de "empregos gerados" jamais conseguiu disfarçar essa aritmética elementar.
O Texas que era símbolo da liberdade econômica vai virando vitrine do planejamento industrial à brasileira, com a diferença de que aqui se chama BNDES e lá se chama IRA. A engenharia é idêntica: burocrata escolhe setor, dinheiro público garante margem, empresário privatiza ganho, contribuinte engole prejuízo, jornalista chama tudo isso de "desenvolvimento". Daqui a cinco anos, quando metade dessas plantas estiver operando a quarenta por cento da capacidade ou já tiver quebrado, a manchete será sobre a "necessidade de novos estímulos". E o ciclo recomeça, porque o gosto pelo dinheiro alheio é a única coisa verdadeiramente sustentável nesse modelo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.