O Banco do Japão torrou dezenas de bilhões de dólares em intervenções cambiais nos últimos meses para tentar segurar a queda do iene, e o resultado é o mesmo de sempre quando burocrata acha que pode dar ordem ao mercado, a moeda continua fraca, os preços de importação continuam subindo e a dona de casa em Osaka continua pagando mais caro pelo arroz, pelo gás, pelo combustível. Bloomberg agora descobre, com aquele ar de espanto que só economista mainstream consegue fingir, que bilhões gastos no mercado de câmbio não foram suficientes para reverter a tendência. Quer dizer, alguém realmente acreditou que ia funcionar?
O diagnóstico do problema é tão antigo quanto a própria invenção do papel moeda sem lastro. O Japão passou três décadas com taxa de juros próxima de zero, depois mergulhou em território negativo, depois inundou os mercados com compras massivas de títulos públicos para financiar uma dívida que já ultrapassa duas vezes e meia o PIB. Enquanto isso, do outro lado do Pacífico, o Federal Reserve mantém juros relativamente altos para combater a inflação que ele mesmo fabricou na pandemia. O capital faz o que sempre faz, vai onde rende mais. O iene desaba não porque os especuladores são malvados, e sim porque o diferencial de juros transforma a moeda japonesa em combustível barato para operações de carry trade no mundo inteiro.
O ponto que ninguém em Tóquio quer encarar é que a intervenção cambial é teatro. É espetáculo caro, encenado para a galeria política, financiado com reservas que pertencem ao povo japonês e queimado contra um oceano de fluxos privados que move trilhões por dia. Cada dólar vendido pelo Ministério das Finanças japonês é absorvido em horas pelo mercado, que volta a empurrar o iene para baixo no dia seguinte. É como tentar esvaziar o mar com balde, só que o balde é dinheiro do contribuinte e o mar é a consequência inevitável de décadas de impressão monetária irresponsável.
E aqui está a beleza perversa da coisa, o que se vê é o iene caindo, o que ninguém mostra é quem está ganhando com isso. Exportadores japoneses adoram iene fraco, suas ações sobem, seus lucros explodem em moeda local. Grandes detentores de dívida pública japonesa precisam dessa política monetária frouxa para sobreviver. Os bancos que fazem carry trade lucram fortunas. Quem perde? O trabalhador comum, o aposentado com poupança em ienes, a família que importa quase tudo que come e quase tudo que aquece. A inflação importada é o imposto mais regressivo que existe, e ele cai com força total sobre quem menos pode pagar.
O caso japonês deveria servir de aula prática para todos os ministros da Fazenda do planeta, inclusive para o nosso aqui no Brasil, que parecem acreditar que o câmbio é variável de planilha que se ajusta com canetada. Não se ajusta. Câmbio é preço, e preço é informação que o mercado produz a partir de milhões de decisões descentralizadas sobre confiança, juros, produtividade e expectativa fiscal. Quando o governo tenta manipular esse preço, ele apenas queima reservas e adia o ajuste, que sempre chega mais brutal por causa do adiamento. A história monetária dos últimos cinquenta anos é um cemitério de bancos centrais que tentaram domar o mercado cambial na base do músculo e saíram quebrados.
O que o Japão precisa não é de mais intervenção, é de menos dívida, menos gasto público, mais produtividade e coragem para deixar o juro encontrar seu nível natural. Como nada disso vai acontecer porque exigiria adultos no comando, o iene vai continuar caindo, as reservas vão continuar minguando, e em algum momento o Banco do Japão vai descobrir, com aquele mesmo ar de espanto da Bloomberg, que impressora de dinheiro nunca venceu uma única batalha contra a aritmética. Quem aposta contra a matemática sempre quebra, só varia o prazo.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.