Domingo passado, trabalhadores de uma das maiores plantas de processamento de carne dos Estados Unidos voltaram às linhas de produção depois de ratificar um acordo com a JBS que inclui reajuste salarial escalonado ao longo de dois anos, bônus único de 750 dólares, pagamento de equipamentos de proteção individual pela empresa e teto sobre aumentos nos custos de saúde. O sindicato United Food and Commercial Workers Local 7, que representa cerca de 3.800 funcionários em Greeley, no Colorado, declarou vitória. A JBS disse que manteve o mesmo "arcabouço" de sua proposta original. Os dois lados estão mentindo pela metade, que é a definição técnica de acordo.
O que vale registrar não é o desfecho em si, mas o percurso. Os trabalhadores cruzaram os braços por três semanas. Não pediram ao governo para fixar salário, não rogaram ao Congresso por legislação especial, não esperaram que algum burocrata bem-intencionado descesse de Washington para resolver a situação. Suspenderam o fornecimento de trabalho, que é a única moeda que possuem, e esperaram. A empresa sentiu no bolso. Negociou. Cedeu mais do que queria. Isto, para quem entende o que é mercado de verdade, é o sistema funcionando: cada parte detém algo que a outra quer, e o preço emerge do embate. Nenhum decreto foi necessário.
Agora vem o ponto que os jornais de negócios preferem não desenvolver. A JBS não nasceu pelo vigor de empreendedores que apostaram o patrimônio próprio num frigorífico de Anápolis. A empresa foi catapultada para o clube das gigantes globais com o generoso patrocínio do BNDES, o banco de fomento brasileiro cujas fontes de recursos são, em última instância, o trabalhador e o contribuinte do Brasil. Bilhões de reais a juros subsidiados, aportados em nome do "campeão nacional", transformaram uma empresa regional em terceira maior processadora de proteína animal do planeta. O brasileiro que hoje mal consegue comprar um quilo de carne moída no supermercado financiou, sem saber e sem consentir, a internacionalização da companhia que agora paga bônus em dólar para empregados no Colorado. Não existe crime mais elegante do que o capitalismo de compadrio bem executado.
O momento do acordo tampouco é neutro. Os Estados Unidos vivem sob uma barragem tarifária que o governo Trump vem construindo desde o início do ano, com impactos diretos na cadeia de proteína animal: incerteza nos custos de insumos importados, volatilidade nos preços de exportação, pressão sobre margens em todos os elos da cadeia. Acordar um aumento de quase 33% sobre a última proposta pré-greve, num ambiente de custos operacionais em alta, diz alguma coisa sobre o estado real das negociações dentro da empresa, qualquer que seja o comunicado oficial. Empresas não cedem um terço de salário por bondade, nem por pressão sindical isolada. Cedem quando calcular que o custo de continuar parado supera o custo de conceder.
E o contrato vai até abril de 2028, o que é revelador. A JBS travou os custos de mão de obra numa janela onde as tarifas americanas ainda são imprevisíveis, onde a inflação de alimentos nos EUA continua como problema político de primeiro escalão e onde qualquer nova paralisação teria repercussão infinitamente maior do que a que acabou de terminar. Gerenciamento de risco disfarçado de gesto social. O vocabulário muda; a lógica do interesse próprio não.
O trabalhador americano de frigorífico ganhou. O contribuinte brasileiro que financiou a empresa que emprega esse trabalhador não ganhou nada, nem foi consultado. Esta assimetria não é acidente nem falha do sistema: é a característica definitória de qualquer arranjo onde o risco é socializado e o lucro é privatizado. A cerca foi construída com dinheiro de todos, e a colheita pertence a quem tinha o título da fazenda. Assim foi, assim é, assim será, enquanto houver governo disposto a escolher vencedores com o dinheiro dos outros.
Com informações do Valor Econômico e Associated Press. A análise e opinião são do O Algoz.