A Jefferies, com aquela solenidade que só os bancos de investimento conseguem fingir, anunciou que elevou o preço-alvo das ações da Urban Outfitters depois que a varejista entregou números de vendas acima do consenso. Tradução para quem não fala dialeto de relatório trimestral: o mesmo analista que meses atrás dizia que o varejo de moda americano estava condenado pela inflação, pelos juros altos e pelo "consumidor cauteloso" agora descobre, espantado, que jovens de classe média continuam entrando em loja, experimentando jeans e saindo com sacola. Quer dizer, a vida acontece, e o modelo do analista corre atrás.
Olha, há algo de cômico nessa coreografia. O preço-alvo é elevado depois do fato, nunca antes. Ninguém de terno em Manhattan acertou o boom das marcas Anthropologie, Free People e Nuuly no momento em que ele estava se formando; foi preciso o balanço já publicado, a receita já contabilizada, o cliente já tendo pago, para que a planilha fosse ajustada. Isso não é previsão, é estenografia. E ainda assim a manchete trata o evento como sabedoria.
Me diz uma coisa: o que de fato aconteceu? A Urban Outfitters segmentou o público, abriu Nuuly como serviço de aluguel de roupa, apostou na Free People para o público mais velho de classe média alta e manteve a marca-mãe para o adolescente urbano. Em outras palavras, leu o cliente, ofereceu opções, ajustou preço, errou coleção, acertou outra, e foi corrigindo no escuro com o dinheiro dos sócios. Nenhum comitê em Washington, nenhuma política pública, nenhum subsídio cultural decidiu o que aquela menina de vinte anos em Chicago ia vestir nesta primavera. Foi o conhecimento disperso de milhões de compras decidindo o que sobrevive nas prateleiras. E sobreviveu.
O que não se vê na manchete é o cemitério das concorrentes. A mesma onda que levantou a Urban afundou redes que faliram no último biênio porque erraram a mão, alugaram lojas caras demais, financiaram estoque com dívida na hora errada. Não houve resgate, não houve pacote de salvação, não houve linha emergencial do Tesouro para a varejista de shopping. Faliu quem errou, sobrou quem acertou, e o capital migrou de onde estava desperdiçado para onde está sendo bem usado. É feio, é cruel, e é exatamente isso que faz o sistema funcionar. Tirem essa dinâmica do meio do caminho, como fizeram com bancos em 2008 e com montadoras em 2009, e você terá zumbis no lugar de empresas.
A pergunta interessante, no entanto, é outra. Se o consumidor americano está comprando jeans de cento e cinquenta dólares enquanto o Federal Reserve segura juros nas alturas e enquanto a dívida pública americana avança para territórios obscenos, de onde vem o dinheiro? Vem do cartão de crédito rotativo batendo recordes, vem da poupança pandêmica já queimada, vem de uma geração que aprendeu a viver no fluxo porque o estoque nunca vai existir. O boom da Urban Outfitters é, em parte, o último suspiro de um padrão de consumo financiado por crédito num país onde imprimir dólar virou política industrial. Quando essa conta chegar, e ela vai chegar, o mesmo analista da Jefferies vai escrever, com a mesma solenidade, que a varejista enfrenta "ventos contrários estruturais". Já estará atrasado de novo.
Enquanto isso, fica o registro de que, apesar do banco central, apesar do Tesouro, apesar da imprensa econômica que vive prevendo recessão para anteontem, alguém em algum lugar abriu uma loja, contratou vendedora, escolheu coleção, errou metade, acertou a outra metade e gerou lucro. Isso se chama mercado, e ele continua funcionando justamente onde menos o atrapalham.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.