A Jefferies elevou o preço-alvo das ações da Twilio e o mercado tratou a notícia como se algum oráculo tivesse descido do Olimpo das finanças com tábuas de pedra. O argumento, claro, é o de sempre nos últimos três anos, inteligência artificial. Diga essas duas palavras numa teleconferência e os múltiplos sobem dois dígitos antes do café da manhã. Não importa se a empresa entrega lucro, fluxo de caixa ou apenas slides bonitos com a sigla certa, o ritual é o mesmo, e a liturgia exige genuflexão coletiva dos analistas que ganham bônus por seguir, não por pensar.

Convém lembrar o que a Twilio é antes que o entusiasmo apague o real. Uma empresa de comunicação programável, mensageria via API, infraestrutura de SMS e voz para outros aplicativos. Negócio sólido, margens espremidas, concorrência feroz, histórico recente de demissões em massa e prejuízos contábeis que fariam corar qualquer empresário de padaria. De repente, plugando um chatbot na plataforma, vira protagonista da revolução cognitiva. Olha, se isso é revolução, então toda padaria que comprou maquininha de cartão virou fintech disruptiva em 2018.

O fenômeno tem nome antigo, e não precisa de jargão de Faria Lima para ser entendido. Quando o dinheiro é barato, ou quando a expectativa é de que voltará a ser, todo ativo de risco precisa de uma narrativa que justifique o preço que o juro real não justifica mais. Nos anos noventa foi o ponto-com. Em 2008 foi o imobiliário securitizado com selo AAA. Em 2021 foi tudo que terminava em coin ou começava com meta. Agora é IA, e os mesmos atores, com os mesmos terninhos, lendo os mesmos relatórios uns dos outros, descobrem simultaneamente que a Twilio é um play de IA. Que coincidência reveladora.

Siga o dinheiro e a coreografia fica clara. O banco que eleva o preço-alvo é o mesmo que estrutura emissões, intermedia ofertas secundárias, presta consultoria a fundos que carregam o papel e cobra taxa em cada perna do circuito. O analista que assina o relatório precisa do acesso ao C-level da empresa coberta para o próximo evento corporativo. A empresa coberta precisa do papel valorizado para pagar executivos com stock options e financiar aquisições com ações em vez de caixa. Todo mundo ganha, menos o investidor de varejo que entra no topo achando que está participando do futuro, quando na verdade está pagando o jantar do festejo alheio.

Há uma confusão deliberada entre tecnologia que funciona e ação que merece o múltiplo. A inteligência artificial é real, é transformadora, vai mudar setores inteiros, ninguém sério discute isso. Mas daí a concluir que qualquer empresa que mencione IA três vezes no release trimestral deve negociar a vinte vezes receita, vai uma distância que só a euforia preenche. O que não se vê quando o preço-alvo sobe é o capital que está sendo desviado de empresas produtivas, com lucro real e preço justo, para alimentar uma rotação setorial que serve principalmente a quem opera dentro do casino, não a quem deposita poupança nele.

O resultado prático dessa engenharia de expectativas é sempre o mesmo, ciclo após ciclo. Forma-se a bolha pela combinação de juro artificialmente baixo, narrativa irresistível e incentivo perverso de quem aconselha. Estoura a bolha quando a realidade dos fluxos de caixa não acompanha as projeções dos slides. Sobra o varejo segurando o mico, sobram demissões em massa nas empresas que cresceram demais rápido demais, e sobra o banco que elevou o preço-alvo escrevendo o próximo relatório, agora rebaixando, com a mesma seriedade técnica de quem nunca errou na vida. A festa termina, a conta chega, e quem dança não é quem cobra a entrada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.