A Jefferies revisou para baixo o preço-alvo da Tractor Supply alegando perspectivas fracas de vendas em mesmas lojas, aquele indicador que separa crescimento real de truque contábil. A reação no mercado foi o habitual encolher de ombros dos algoritmos, mas quem entende de economia real deveria prestar atenção. A Tractor Supply não vende luxo urbano, vende o básico do interior americano, o fazendeiro, o criador de galinha, o dono de sítio, o sujeito que compra parafuso, arame farpado e ração para o cavalo. Quando esse cliente desacelera, não é moda passageira, é sintoma.

Olha, ninguém acorda de manhã e decide cortar ração do gado por capricho. O consumidor que sustenta uma rede como essa é justamente o que foi esmagado por três anos de inflação acumulada disfarçada de recuperação pós-pandemia. O governo americano gastou trilhões que não tinha, o banco central imprimiu o que faltava, e agora o sujeito que vive longe do circuito financeiro de Manhattan descobre que o salário compra menos saco de ração do que comprava em 2021. A conta da farra monetária sempre chega, e chega primeiro para quem não tem como se proteger em ativos financeiros sofisticados.

Me diz uma coisa, de onde o analista de Wall Street acha que vem esse aperto? Não vem da Tractor Supply ter perdido competência de gestão, a empresa continua bem administrada, com logística invejável e margem saudável. Vem do fato de que o poder de compra do cliente final foi corroído sistematicamente por uma política que tratou a impressora de dinheiro como ferramenta de gestão macroeconômica. Aquilo que se viu foi o cheque de estímulo, o subsídio, o programa bonitinho. Aquilo que não se viu foi o preço do combustível, do fertilizante, do milho, da carne, e o aumento silencioso de cada item na prateleira rural.

E quem ganhou com essa festa? Não foi o homem do campo. Foram os detentores de ativos inflacionados pela liquidez artificial, os amigos do Tesouro, os grandes bancos que receberam reservas remuneradas de graça, o complexo industrial subsidiado pelos pacotes de infraestrutura. Siga o dinheiro e verá que ele nunca, em hipótese alguma, termina no bolso de quem compra saco de ração de cinquenta quilos. Termina em Washington, em Nova York, em lobby de associação setorial. O resto paga a conta fingindo que isso se chama política pública.

Quer dizer, o relatório da Jefferies é apenas o termômetro, não a doença. A doença é estrutural, é a confusão antiga entre estimular consumo e gerar riqueza, entre imprimir dinheiro e criar valor, entre planejar economia de cima e deixar que milhões de decisões individuais se coordenem sozinhas via preços honestos. Toda vez que um burocrata decide que sabe mais do que o mercado sobre qual deve ser a taxa de juros correta, algum fazendeiro em Oklahoma acaba adiando a compra de uma bomba d'água nova dois anos depois. Os fios da causa são longos, mas existem.

A lição é velha e ninguém quer aprender. Prosperidade não se decreta, não se imprime e não se subsidia. Prosperidade é o que sobra quando o governo para de atrapalhar quem produz. Enquanto os bancos de investimento continuarem medindo a saúde do varejo rural como se fosse fenômeno isolado, vão continuar se surpreendendo com cada corte de guidance. A Tractor Supply está bem, o cliente dela é que está exausto de pagar a conta de uma festa para a qual nunca foi convidado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.