Existe uma manha intelectual antiga, e cada geração de padre progressista e pastor de esquerda a recicla como se fosse novidade de seminário. A manha é simples, quer dizer, simplória: pegar o carpinteiro da Galileia, vestir nele uma camiseta vermelha, e sair pregando que quem não apoia programa de transferência de renda, imposto sobre patrimônio e estatização de hospital está, no fundo, crucificando o Senhor de novo. O problema é que a própria lógica que eles usam para condenar o capitalista que não financia a ONG alheia volta como bumerangue contra o Deus que eles dizem defender. Se ter o poder de aliviar o sofrimento gera, automaticamente, o dever moral de aliviar todo sofrimento, então o homem que multiplicou pães para cinco mil e deixou dez mil famintos no vilarejo ao lado é, pelo critério do próprio acusador, ou cruel ou incompetente. Escolha a porta.
Olha, a saída honesta dessa armadilha foi dada há dois mil anos e continua válida, só que incomoda quem quer usar a fé como alavanca de poder político. Cristo curou quem curou, e não curou quem não curou, porque a caridade genuína é ato livre, pessoal, dirigido, enraizado em relação concreta entre quem dá e quem recebe. Não é cota, não é meta, não é política pública com nome bonito. Quando o sujeito transforma misericórdia em obrigação universal executada pelo Estado, ele não está imitando Cristo, está imitando o funcionário do fisco que bate na porta do contribuinte com cara de quem faz favor. Caridade com arma na mão tem nome, e o nome não é amor ao próximo.
Me diz uma coisa, por que é que sempre que aparece um profeta de púlpito defendendo redistribuição compulsória, a conta é paga pelo pedreiro, pela costureira, pelo pequeno comerciante que abre às seis da manhã, e nunca pelo patrimônio da instituição que prega? O Vaticano tem arte italiana suficiente para alimentar metade da África durante uma década, e a universidade teológica progressista americana tem endowment de bilhão de dólares investido em Wall Street. O dinheiro que eles pregam que deve ser tirado dos outros nunca é o deles. Isto não é acidente, é desenho. A virtude barata consiste justamente em ser generoso com a bolsa alheia enquanto se recebe salário, prestígio social e passagem aérea de classe executiva para falar em congresso sobre os pobres.
A confusão de fundo é teológica, não econômica, e é por isso que precisa ser esclarecida teologicamente. O Evangelho não prometeu paraíso na Terra. Quem promete paraíso na Terra, aliás, geralmente entrega inferno, e a história do século vinte está cheia de fossas comuns para provar isso. Cristo falou em reino dos céus, falou em salvação pessoal, falou em conversão do coração, e quando o perguntaram diretamente sobre imposto ele deu a resposta mais antissocialista possível, separando o que é de César do que é de Deus, em vez de confundir os dois numa pasta só. O reino não vem por decreto, não vem por plano quinquenal, não vem por secretaria estadual de assistência social. Vem pelo encontro de cada alma com a graça, e pelo ato livre de caridade que nasce disso.
O teólogo da libertação e o pastor progressista cometem, sem perceber, a mais antiga das idolatrias, que é confundir o instrumento com o fim, trocar o Deus vivo pela máquina burocrática, e transferir a fé no Redentor para a fé no Tesouro Nacional. Eles não estão secularizando a religião, estão sacralizando o Estado. É por isso que qualquer crítica ao programa social vira, no vocabulário deles, pecado. É por isso que a redução de imposto vira, milagrosamente, assassinato. Quem ouve isso tem obrigação de reagir, porque é inversão completa. O verdadeiro pecado é pegar o sofrimento humano, real, concreto, que merece resposta pessoal e comunitária, e transformá-lo em matéria-prima para a expansão de uma burocracia que, como toda burocracia, existe primeiro para se perpetuar e só depois, se sobrar tempo, para atender quem ela diz servir.
A pergunta que ninguém faz, porque derruba o castelo inteiro, é esta: se o Estado-providência é a encarnação terrena da caridade cristã, por que é que quanto mais o Estado cresce, mais a família se desfaz, mais a comunidade se esvazia, mais o indivíduo fica sozinho diante do balcão, mais os barracos se multiplicam nas periferias, e mais os templos ficam vazios? O custo invisível da caridade compulsória é a morte da caridade voluntária, é o atrofiamento do músculo moral de cada cidadão, que passa a achar que ajudar o próximo é tarefa de repartição pública. Quando o Estado toma para si o papel do bom samaritano, sobra um sujeito atravessando a estrada sem parar, porque já pagou seu imposto e se considera em dia com a consciência. Cristo curava um por um, olhando nos olhos, porque a salvação é sempre pessoal. Quem troca isso por planilha do Ministério do Desenvolvimento Social não está mais perto do Reino, está apenas mais confortável no próprio pecado, com a vantagem adicional de se achar santo.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.