A Co-Diagnostics anunciou que sua joint venture na Arábia Saudita finalizou o contrato de arrendamento de uma instalação. Pronto. É essa a notícia. Um galpão alugado em Riade virou comunicado oficial ao mercado, e investidor honesto, daquele que ainda lê press release achando que vai encontrar substância, recebe a informação como se fosse o anúncio de uma cura para o câncer. Olha, quando uma empresa precisa transformar a assinatura de um contrato imobiliário em fato relevante, o problema raramente está no imóvel. Está no que o imóvel está tentando esconder.
O arranjo é desses clássicos que se repetem desde que o mundo descobriu que dinheiro de regime autoritário precisa de fachada de modernidade. De um lado, uma empresa americana de capitalização modesta, daquelas que vivem do próximo anúncio porque o trimestre anterior raramente se sustenta sozinho. Do outro, um sócio saudita com a paciência financeira de quem nunca precisou justificar gasto a conselho de administração de verdade. No meio, a chamada Visão 2030, o programa estatal pelo qual a coroa decidiu que vai diversificar a economia por decreto, com bilhões de dólares jogados em setores escolhidos a dedo por burocratas que nunca operaram um negócio na vida.
E aqui está o detalhe que o investidor distraído não vê. Quando o capital flui porque um príncipe decidiu que diagnóstico molecular é o futuro, o preço dos insumos, dos imóveis, dos salários, tudo passa a refletir não a demanda real de pacientes pagando do bolso por um exame, mas a alucinação de planejamento de quem tem petróleo demais e mercado de menos. O galpão arrendado custa o que o petrodólar disser que custa. A joint venture é viável enquanto o subsídio implícito durar. E quando o vento virar, e ele sempre vira, o que sobra é instalação ociosa, equipamento sucateado e acionista minoritário americano segurando vela.
Me diz uma coisa, alguém perguntou se existe demanda real e privada na Arábia Saudita por testes moleculares de Co-Diagnostics suficiente para justificar uma operação local? Ou estamos diante daquela velha aritmética em que o governo saudita garante o cliente, garante a margem, garante o volume, em troca de transferência de tecnologia, empregos para nacionais e a aparência de que o reino virou polo biotecnológico? Porque se for isso, e geralmente é, não estamos olhando para uma operação de mercado. Estamos olhando para um contrato de prestação de serviços disfarçado de investimento estrangeiro direto, com a empresa americana funcionando como consultora bem paga até o dia em que deixar de ser conveniente.
O capitalismo de compadrio tem sotaques diferentes em cada continente, mas a estrutura é sempre a mesma. Em Brasília chama BNDES com juros subsidiados para campeão nacional. Em Pequim chama política industrial com banco estatal financiando perda. Em Riade chama Visão 2030 com fundo soberano arbitrando vencedores. E em Wall Street chama oportunidade emergente, parceria estratégica, expansão internacional, todos os eufemismos cunhados para vestir de paletó aquilo que, no fundo, é dinheiro público de um lugar correndo atrás de retorno em outro, com o pagador final sempre sendo o cidadão que nunca foi consultado.
O que se vê é o galpão, o contrato, o anúncio, a alta de meio porcento na ação no aftermarket. O que não se vê é o capital privado genuíno que deixou de fluir para projetos sem padrinho estatal, o empreendedor saudita que não conseguiu financiamento porque não estava na lista da Visão, e o consumidor final que vai pagar por um teste que custaria metade se o mercado tivesse decidido o preço em vez do comitê. Galpão alugado não é estratégia. É endereço. E endereço, sozinho, nunca pagou dividendo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.