Jamie Dimon, o homem que comanda o JPMorgan Chase, soltou em entrevista que a permanência da megatorre do banco em Canary Wharf depende de quem estiver sentado na cadeira de Downing Street. Se Keir Starmer cair, o prédio pode ir junto. A frase foi embalada em linguagem corporativa, daquelas que economistas de gravata adoram repetir como se fosse profundidade analítica, mas o recado nu e cru é simples: o banco quer o governo que tem, e está disposto a chantagear com empregos e metros quadrados para mantê-lo.

Olha, há uma beleza quase cômica no espetáculo. O mesmo establishment financeiro que passou décadas pregando livre mercado, mobilidade de capital e meritocracia global agora descobre que prefere governos que lhe garantam o arranjo certo, a regulação amiga, o resgate na hora do aperto. Quer dizer, o capital só é livre quando convém. Quando não convém, ele bate o pé, ameaça mudar o endereço e exige fidelidade política do eleitor britânico como se o cidadão devesse votar pensando no humor do conselho de acionistas de Manhattan.

Vale seguir o dinheiro um instante, porque é aí que a fábula desmorona. O JPMorgan não escolheu Londres por amor à neblina. Escolheu porque o regime regulatório atual lhe convém, porque os subsídios disfarçados de incentivo fiscal lhe convêm, porque o acesso privilegiado aos formuladores de política monetária lhe convém. Starmer, com seu trabalhismo morno e tecnocrático, é exatamente o tipo de gestor que o capital financeiro adora: progressista o suficiente para acalmar a plateia, conservador o bastante no essencial, ou seja, em deixar o sistema bancário fazer o que sempre fez. Trocar isso por um governo imprevisível assusta quem prosperou no previsível.

Me diz uma coisa, desde quando banco grande tem opinião sobre primeiro-ministro? Desde sempre, é a resposta honesta, só que antigamente se fingia mais. Lembre-se que o velho jogo do capitalismo de compadrio funciona assim: o banco financia campanha, lobiza regulação, captura órgão fiscalizador, recebe socorro quando quebra e, no intervalo, dá entrevista para a imprensa econômica explicando ao povo eleitor qual é a escolha responsável. Quando dá errado, a conta cai no contribuinte via inflação, via imposto, via aperto monetário que afunda o pequeno comércio enquanto a torre de vidro continua firme. O que se vê é o emprego que o banco promete manter. O que não se vê é o custo que o britânico comum paga para que essa promessa exista.

E há aqui um detalhe que merece atenção, porque toca no coração da liberdade política. Quando uma instituição privada gigantesca declara abertamente que vai punir o eleitorado por escolher errado, ela está confessando que a democracia, para o sistema financeiro globalizado, é tolerada apenas enquanto produz o resultado contábil esperado. Saiu o resultado errado, vem a retaliação travestida de decisão de negócio. Não existe almoço grátis nessa história, e quem vai pagar pelo almoço do JPMorgan, como sempre, é o contribuinte que nunca pisou em Canary Wharf.

A lição final é desconfortável e por isso mesmo precisa ser dita. O capitalismo de verdade, o que separa lucro de prejuízo e deixa o mau gestor quebrar, não tem nada a ver com esse arranjo. Esse circo em Londres é outra coisa: é o casamento entre Estado regulador e capital favorecido, sustentado por moeda elástica e regulação encomendada. Quando o banco ameaça mudar a torre, não está exercendo liberdade econômica. Está cobrando dividendo político de um investimento que fez décadas atrás. E o pior é que vai receber.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.