O JPMorgan rebaixou a recomendação das ações da TopBuild logo depois de anunciada a aquisição pela QXO, e o mercado engoliu a mudança como se fosse análise. Não é. É coreografia. Quando uma companhia é comprada por valor fixado, o preço do papel deixa de refletir fundamento e passa a gravitar em torno do número do acordo, como pedra amarrada num poço. O banco que antes recomendava comprar agora diz que não há mais upside, e pronto, está feito o teatro da revisão técnica. A questão interessante não é o rebaixamento. É por que alguém ainda finge que isso é pensamento independente.
Siga o dinheiro e a fumaça se dissipa. O JPMorgan não é espectador neutro dessa peça, é agente de assessoria em fusões, credor potencial, estruturador de dívida, colocador de bônus. Há uma cadeia inteira de comissões que se alinham quando um negócio desses sai do papel, e o departamento de research do banco não opera num convento isolado. A chamada muralha da China entre as áreas é, na prática, uma cortina de renda muito fina. O investidor de varejo que leu o relatório pela manhã não está recebendo inteligência, está recebendo o resíduo tardio de decisões tomadas em mesas onde ele jamais será convidado.
O pano de fundo é ainda mais revelador. A QXO é o veículo de consolidação montado por Brad Jacobs, o empresário que transformou fundir empresas num negócio em si, não apenas meio para outra coisa. A TopBuild, que fabrica e instala isolamento térmico, é peça numa aposta maior de que o setor de distribuição de materiais de construção nos Estados Unidos vai se concentrar em poucas mãos. E concentrações assim dependem de crédito barato, de bancos dispostos a financiar o rolo compressor, de um ambiente regulatório que não incomode. Quer dizer, dependem exatamente daquilo que décadas de juros artificialmente baixos produziram, o império dos agregadores financeiros que compram, cortam e revendem como quem recorta revista.
Há aqui o velho teatro de que o mercado sabe se autorregular através de seus sinais, e o sinal de hoje é que a ação deve estacionar porque já foi negociada a portas fechadas. Olha, o sistema de preços é a maior invenção humana para agregar conhecimento disperso, mas ele só funciona quando os preços emergem de milhões de decisões independentes. Quando uma fusão é anunciada, o preço congela e o mercado secundário vira apenas uma sala de espera para o fechamento do negócio. A eficiência informacional que os livros-texto celebram evapora no momento em que o arranjo entre principais é selado, e o restante é contabilidade.
Me diz uma coisa, quem ganha de verdade com essa valsa? Os acionistas da TopBuild embolsam o prêmio do anúncio e saem. Os executivos recebem seus pacotes de saída. O banco assessor fatura o percentual. O gestor da QXO engorda seu império. E o pequeno investidor, que comprou a ação três meses atrás confiando na recomendação anterior do mesmo JPMorgan que agora vira a casaca, fica com o que sobra. Isto não é falha do capitalismo, isto é o que acontece quando o capitalismo real, feito de poupança genuína e decisões pulverizadas, é substituído pelo capitalismo de papelada, feito de crédito inflacionário e engenharia de balanço.
A consolidação anunciada vai ser celebrada em coluna de jornal econômico como criação de sinergias, modernização do setor, ganho de escala. Nenhum desses substantivos diz o que aconteceu de fato. O que aconteceu foi transferência de propriedade entre grandes, financiada por quem imprime dinheiro lá em cima, executada por quem cobra comissão no meio, e paga, no fim da cadeia, pelo consumidor que verá menos competição no mercado de isolamento térmico americano nos próximos cinco anos. A recomendação do banco é só a nota de rodapé de um processo que já estava escrito. O resto é encenação para os que ainda acreditam em relatórios.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.