Jamie Dimon abriu a boca em frente aos analistas e disse, com aquela frieza de quem já contou o dinheiro três vezes antes do café, que o JPMorgan vai contratar mais especialistas em inteligência artificial e menos banqueiros. Anunciado assim, soa como modernização inevitável, quase poética, o velho banco se reinventando para o futuro. Olha, se isso fosse mesmo apenas eficiência tecnológica, não precisaria de coletiva. Precisaria de planilha. O que está sendo anunciado não é uma reforma operacional, é um aviso prévio coletivo embrulhado em jargão de Vale do Silício.
Quer dizer, faz sentido para o acionista do JPMorgan, claro. Um modelo de linguagem não exige bônus de fim de ano, não processa o RH, não vaza para o Wall Street Journal nem dorme com a secretária. Substituir analistas júnior por GPUs é, do ponto de vista contábil, a coisa mais racional que um CEO pode fazer hoje. Só que tem um pequeno detalhe que o comunicado oficial omite com elegância suíça, o ganho de produtividade não acontece no vácuo. Ele acontece dentro de um sistema bancário que opera sob a proteção implícita do contribuinte americano desde pelo menos 2008, com janelas de liquidez do Fed escancaradas sempre que a turma da gravata se mete em encrenca.
Me diz uma coisa, qual é a margem de lucro de um banco que pode tomar dinheiro a juros próximos do nada do Banco Central, repassar a custo de mercado, e ainda terceirizar a análise de risco para máquinas treinadas com dados que ele mesmo monopoliza? É a definição livresca de capitalismo de compadrio, só que agora com camada de software. O cliente comum, que vai ser atendido por chatbot enquanto o gerente humano some, segue pagando a mesma tarifa de manutenção, a mesma taxa de cartão, o mesmo spread cavalar, mas agora sem ninguém do outro lado para reclamar. A eficiência é toda do banco. O custo da transição é socializado pela inflação que o próprio sistema bancário ajuda a fabricar.
E tem o que não se vê, que é sempre o mais importante. Cada banqueiro júnior demitido em Nova York representa uma cadeia inteira de aluguéis, restaurantes, professores particulares de filho, motoristas, faxineiras, pequenos comércios que sustentavam aquela engrenagem humana. A produtividade do algoritmo é visível no balanço trimestral. O empobrecimento difuso da classe média qualificada, que durante quarenta anos foi vendida como destino certo para quem estudasse direito, esse só aparece daqui a uma década, quando o mesmo Dimon estiver dando entrevista lamentando a perda de coesão social e propondo, claro, mais regulação estatal para resolver o problema que o próprio dinheiro fácil criou.
O mais sintomático é a reação da imprensa especializada, toda extasiada com a coragem do executivo visionário. Ninguém pergunta de onde vem o capital quase infinito que permite ao JPMorgan comprar talento de IA pagando o triplo do que uma startup paga. Vem do mesmo lugar de sempre, da impressora monetária que transformou bancos grandes demais para quebrar em bancos grandes demais para competir. A inteligência artificial não está democratizando finanças, está concentrando ainda mais um mercado que já era oligopólio. Quem tem acesso a crédito subsidiado compra a tecnologia, quem não tem, vira cliente da tecnologia.
No fim das contas, o anúncio de Dimon é a versão século vinte e um da velha história, troca-se trabalho humano por capital, e como o capital nesse setor é praticamente de graça graças à política monetária frouxa, a troca é artificialmente acelerada. Em uma economia com juros reais, com moeda sólida, com banco operando risco próprio, a substituição aconteceria devagar, organicamente, dando tempo para a sociedade absorver. Do jeito que está, é demolição controlada com narrativa de progresso. E quando o prédio cair, vão dizer que ninguém poderia ter previsto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.