Existe uma regularidade histórica que as pessoas educadas evitam mencionar em voz alta: toda revolução que fracassa no campo econômico reaparece no campo cultural com vocabulário mais refinado e ambições mais pacientes. O marxismo clássico prometeu o paraíso via controle dos meios de produção e entregou, sem exceção, fome, campo de trabalho forçado e colapso. Quando isso ficou impossível de esconder, seus herdeiros intelectuais não abandonaram o projeto, não revisaram o diagnóstico, não pediram desculpas ao século. Fizeram algo mais inteligente: trocaram de terreno. Se as fábricas não podiam ser tomadas pela revolução, as universidades, as redações, os tribunais e os ministérios seriam tomados pela erudição. Jürgen Habermas é o filósofo desta segunda estratégia.

O aparato intelectual que ele construiu ao longo de décadas tem uma característica que o torna particularmente eficaz: soa razoável. Fala em "razão comunicativa", em "ação dialógica", em "espaço público deliberativo", palavras que parecem neutras, quase científicas, como se fossem axiomas matemáticos e não escolhas políticas embutidas em linguagem técnica. Mas o que o sistema faz na prática é simples de descrever: define como legítimas apenas as vozes que já aceitaram as premissas progressistas do debate. Quem não aceita essas premissas não é um interlocutor, é um obstáculo à "razão". É excluído não pela violência, mas pelo método. A guilhotina não decapita, ela desqualifica. O resultado prático é idêntico: silêncio.

A Escola de Frankfurt entendeu antes de qualquer outro grupo o que nenhuma militância de rua entende: o poder real não está em quem controla os quartéis, está em quem controla a linguagem através da qual as pessoas pensam a realidade. Renomear as coisas é renomear o mundo. Quando a palavra "família" passa a precisar de aspas, quando "tradição" vira sinônimo de "preconceito" e quando "liberdade econômica" é reinterpretada como "privilégio estrutural", a revolução já aconteceu, sem um único tiro, sem um único voto, sem um único mandato democrático. Ela aconteceu nas salas de aula, nos manuais, nos critérios de contratação das universidades, nos editais de financiamento cultural. Devagar, silenciosamente, geracionalmente.

Não é coincidência que as ideias desenvolvidas por este círculo intelectual encontrem seu maior eco precisamente nas instituições financiadas com dinheiro público compulsório: universidades federais, fundações culturais estatais, organismos internacionais que ninguém elegeu e ninguém pode demitir. Siga o dinheiro e você encontrará a burocracia. Siga a burocracia e você encontrará o progressismo. Siga o progressismo e você encontrará, mais cedo ou mais tarde, os textos desta escola sendo citados como se fossem leis naturais. Não existe mão invisível neste processo. Existe financiamento visível, recrutamento sistemático e paciência de gerações.

O que torna o caso de Habermas particularmente revelador é o contraste entre o que ele defende em teoria e o que seus herdeiros práticos constroem no mundo. Um filósofo que dedica a vida à "ética do discurso" e à legitimidade das instituições democráticas deveria ser o primeiro a defender a liberdade de expressão irrestrita, o debate sem tutela, a pluralidade real de vozes no espaço público. Mas os seguidores práticos de sua filosofia são os mesmos que constroem sistemas de moderação de plataformas, que defendem leis contra "discurso de ódio" com definições suficientemente elásticas para caber qualquer oposição inconveniente e que aplaudem quando conservadores são expulsos de universidades. A teoria prega o diálogo; a prática organiza o monopólio. Julgue o filósofo pelo que seu sistema produz, não pelo que ele diz que pretendia produzir.

Ele chegou aos noventa anos sendo celebrado, citado, homenageado. Décadas de influência sobre gerações de intelectuais que formaram outros intelectuais, que escreveram os currículos, que treinaram os jornalistas, que assessoraram os ministros. A derrota do marxismo como projeto econômico foi retumbante e definitiva. A vitória do marxismo como projeto cultural é visível em cada instituição do Ocidente. O primeiro fracasso está nos livros de história; o segundo sucesso está na nossa vida diária, e a maioria das pessoas não tem nome para o que está sentindo. Esse foi sempre o projeto, e está funcionando há noventa anos.

Com informações do Mises Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.