Um júri americano absolveu a Boeing das acusações de fraude movidas pela LOT Polish Airlines, que pedia cento e cinquenta e três milhões de dólares por prejuízos relacionados ao desastre do 737 MAX. Doze pessoas leigas, sem doutorado em aviação, sem cadeira cativa em conselho regulatório, ouviram semanas de tecnicalidade e disseram que não havia fraude provada. Quer dizer, o sistema funcionou exatamente como deveria funcionar quando não está sequestrado por burocrata, lobista ou agência reguladora capturada. E é justamente por isso que a notícia incomoda quem vive de vender narrativa pronta.

Olha, ninguém aqui está dizendo que a Boeing é santa. A empresa entregou ao mundo dois acidentes catastróficos com o MAX, matou trezentas e quarenta e seis pessoas, e a causa raiz envolve uma mistura tóxica de pressa comercial com um órgão regulador que terceirizou para a própria fabricante a tarefa de se autocertificar. Esse é o ponto que ninguém quer enxergar. Quando a FAA delegou à Boeing o papel de fiscal de si mesma, não estávamos diante de capitalismo selvagem. Estávamos diante daquele arranjo confortável em que a empresa gigante se acomoda dentro da agência e a agência cobra do contribuinte o salário de quem deveria fiscalizá-la. O nome disso é compadrio, e ele nasce do Estado, não do mercado.

Me diz uma coisa: por que a LOT, uma companhia estatal polonesa, escolheu litigar nos Estados Unidos em vez de simplesmente comprar Airbus na próxima leva? Porque sabe que o mercado de aeronaves comerciais de grande porte é um duopólio sustentado por décadas de subsídio cruzado dos dois lados do Atlântico. A Boeing recebeu bilhões em incentivos via contratos militares, isenções estaduais em Washington e South Carolina, garantias de exportação do Ex-Im Bank. A Airbus mamou nas tetas do BEI, dos governos francês, alemão, espanhol e britânico durante décadas, com aqueles "empréstimos reembolsáveis" que ninguém nunca reembolsa direito. Os dois competidores que sobraram no mercado global existem porque governos decidiram que precisavam existir, e os passageiros pagam essa conta no preço da passagem todo santo dia.

O processo da LOT pedia indenização por prejuízos de imagem, cancelamentos e custos operacionais durante o ground do MAX. Faz sentido pedir? Faz. Cabia ao júri decidir se houve fraude dolosa ou se houve erro corporativo grave dentro de um sistema regulatório que falhou em paralelo? Sim, e o júri decidiu. Aqui está a lição que ninguém vai imprimir: a responsabilização funciona melhor quando ocorre no tribunal civil, com regras claras de prova, do que quando vira espetáculo midiático ou caça às bruxas regulatória. O contrato existe, a prova é exigida, o ônus recai sobre quem acusa. Esse é o velho direito comum funcionando, e ele dispensa secretário de estado, comissão parlamentar e ministério da verdade.

O que ninguém vê nessa história é o emprego que não foi criado nas centenas de pequenas fabricantes que poderiam existir num mercado verdadeiramente aberto, sem barreiras de certificação tão caras que apenas dois gigantes conseguem pagar para entrar. O que ninguém vê é o passageiro brasileiro pagando trezentos reais a mais na passagem porque a concorrência foi estrangulada pelas duas mãos visíveis dos respectivos governos. O que ninguém vê é a engenharia menos confiável que emerge quando uma empresa sabe que, no fundo, o governo não vai deixá-la quebrar, porque ela é "estratégica demais para falir". Privatizam-se os lucros, socializam-se as perdas, e quando dá merda, paga-se advogado caro e segue-se o jogo.

O júri fez o seu trabalho. A justiça civil fez o seu trabalho. O escândalo verdadeiro não está no veredito, está no arranjo que produz aviões com sensores únicos sem redundância para economizar peso, que produz pilotos treinados em iPad para vender o avião como se fosse o anterior, que produz reguladores transformados em RH da indústria que deveriam fiscalizar. Enquanto houver capitalismo de compadrio fingindo ser livre mercado, vai continuar caindo avião, vai continuar morrendo gente, e o contribuinte vai continuar pagando duas vezes: uma pelo subsídio na fábrica, outra pelo enterro das vítimas.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.