A notícia que sai do relatório do Baird é menos sobre uma empresa específica e mais sobre um sintoma. Os juros a descoberto da Intellia, ou seja, o volume de apostadores que tomaram ações emprestadas para vender, esperando comprar mais barato depois, lideraram a alta no setor de biotecnologia. Em bom português: existe gente grande, com dinheiro grande e modelo bem feito de planilha, convencida de que aquela cotação está nadando sem roupa. E quando a maré baixar, vai aparecer.

Convém lembrar o pano de fundo. As biotechs viveram, durante anos, uma euforia bancada por dinheiro barato, por aquele oceano de liquidez que os bancos centrais despejaram no sistema achando que estavam curando a economia quando estavam, na verdade, fabricando a próxima ressaca. Empresas que queimam caixa, não geram lucro e dependem de novas rodadas de capital prosperam quando o crédito é fácil. Quando o juro real volta a existir, o jogo muda. O mercado simplesmente está fazendo aquilo que sempre faz quando deixam ele em paz: separar promessa de entrega, narrativa de fluxo de caixa, marketing de balanço.

Aí entra a parte que os comentaristas de televisão fingem não enxergar. O short selling não é vilania, é descoberta de preço. É o sujeito que aposta contra dizendo, em alto e bom som, que o rei está nu. Há décadas se tenta criminalizar essa atividade, com regulações, taxas, restrições, sempre em nome de proteger o investidor, sempre, curiosamente, beneficiando quem está dentro da festa. O resultado é conhecido: quando se proíbe o aviso, a bolha estoura sem aviso, e o estouro é pior. Quem perdeu na Enron, na Wirecard, nas SPACs da pandemia, perdeu exatamente onde os apostadores contrários estavam gritando e ninguém quis ouvir.

O detalhe revelador é que a Intellia opera no setor mais subsidiado, mais agraciado por incentivos públicos e mais mimado pela imprensa especializada da última década. Edição genética virou sinônimo de futuro, e futuro, no léxico do venture capital, virou sinônimo de cheque em branco. Só que cheque em branco não é estratégia de negócio, é fé. E fé, no mercado, dura até o primeiro ensaio clínico que não bate o endpoint, até o primeiro trimestre em que o caixa derrete mais rápido que o anunciado, até o primeiro analista que faz a conta sem o efeito psicotrópico do hype.

Vale olhar para o que não está sendo dito. Enquanto os apostadores contrários assumem o risco com o próprio bolso, os entusiastas da empresa pedem mais isenção fiscal, mais dinheiro público para pesquisa, mais facilitação regulatória. Um lado coloca pele em jogo, o outro lado quer pele alheia. Adivinhe qual dos dois costuma ter coluna na imprensa de negócios sendo tratado como herói, e qual é chamado de especulador. A pilhagem, quando vem de gravata e com PowerPoint sobre cura do câncer, ganha aplausos. O cético, que apenas duvida com o próprio capital, é o vilão da peça.

O recado do relatório do Baird, para quem sabe ler, é simples. O mercado está fazendo o trabalho que governo nenhum, agência reguladora nenhuma e ministério de ciência nenhum jamais conseguiu fazer: separar o que vai entregar do que está só vendendo sonho. Quem quiser apostar contra os apostadores, está liberado, basta colocar o próprio dinheiro. O que não dá é continuar fingindo que biotech é setor sagrado imune às leis da aritmética. Nenhum setor é. A gravidade econômica não pede licença para nenhum jaleco branco.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.