Pediram voto secreto. Olha só que coisa curiosa. O mesmo partido que vive sermonando sobre transparência, accountability e participação popular descobriu, na hora do aperto, que a democracia funciona melhor quando ninguém vê quem está apertando qual botão. Quer dizer, transparência é para os outros. Para si mesmo, o véu. Para o adversário, a vitrine. Para o aliado, o biombo. É o tipo de coerência que só sobrevive porque boa parte do eleitorado parou de prestar atenção.
O pretexto oficial é sempre nobre: garantir a "liberdade" do parlamentar para votar segundo a consciência, sem pressão do líder, sem chantagem do governo, sem olho do partido em cima. Bonito no papel. Só que o deputado não é representante da consciência dele, é representante de quem o elegeu. E quem o elegeu tem todo direito de saber se o voto dado na tribuna corresponde ao discurso feito no palanque. Voto secreto em parlamentar é a versão republicana do cheque em branco: o cidadão assina embaixo e reza para que não transformem sua assinatura em propina.
A manobra, me diz uma coisa, tem nome e endereço. O objetivo confessado era minar a base de Douglas Ruas fabricando dissidências que ninguém pudesse rastrear. No voto aberto, o sujeito que trai a palavra empenhada responde publicamente pela traição. No voto secreto, trai e senta ao lado do traído na foto oficial. É por isso que esse tipo de pedido costuma sair da boca de quem não tem voto suficiente para ganhar no grito e precisa comprar cabeças no escuro. Siga o dinheiro, siga o cargo, siga a comissão que será distribuída depois, e você encontra o verdadeiro motivo do pudor súbito pela privacidade do parlamentar.
Há uma lição antiga que a esquerda tática finge esquecer quando lhe convém: instituição que funciona no escuro apodrece no escuro. A Câmara que inventou o voto secreto para cassações foi a mesma que engoliu uma sucessão de vergonhas que o voto aberto, hoje, ao menos permite documentar. Toda vez que a regra da visibilidade é suspensa "por uma única exceção muito especial", o que se planta é um precedente. E precedente, em política, é semente de árvore que só dá fruto ruim. A cerca estava ali por uma razão, e a razão é simples: quem representa o povo deve ser julgado pelo povo, e para ser julgado precisa ser visto.
O detalhe mais saboroso é o timing. O pedido do PDT não veio embalado em tratado filosófico sobre a independência do Legislativo. Veio cru, operacional, utilitário, feito por aliados de Eduardo Paes que precisavam de um instrumento para virar a mesa. O juiz, para surpresa geral do tráfico de influência carioca, olhou o pedido, olhou a Constituição, olhou o regimento e disse não. Não por heroísmo, apenas porque a resposta estava escrita. E ainda assim, numa praça onde a toga costuma dobrar quando o vento sopra da direção certa, um "não" vale registro. A Alerj vai eleger seu presidente com os nomes à mostra, o que significa que cada deputado terá de escolher entre o constrangimento de votar com coerência ou o constrangimento maior de votar sem ela. Democracia de verdade é esse desconforto. O resto é teatro com iluminação baixa.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.