O Jyske Bank, segundo maior banco independente da Dinamarca, fechou o primeiro trimestre de 2026 com lucro por ação de 17 coroas dinamarquesas. Número seco, frio, sem fanfarra. Não houve coletiva com ministro do lado, não houve linha de crédito subsidiada apresentada como benesse, não houve pacote do tesouro nacional para compensar perdas em aventuras políticas travestidas de política de desenvolvimento. Houve, apenas, um banco privado fazendo o que banco privado deveria fazer: emprestar com critério, cobrar juro coerente com o risco e devolver capital ao acionista que confiou seu dinheiro ali em vez de gastar com cerveja artesanal.
Olha, o detalhe que ninguém vai destacar nos jornais econômicos brasileiros é justamente o mais importante. Aquele lucro de 17 coroas por ação não saiu do bolso de nenhum dinamarquês contra a vontade dele. Saiu da intermediação voluntária entre quem tinha capital sobrando e quem precisava de capital para empreender. É a coisa mais antiga do mundo, mais antiga que o próprio dinheiro de papel, e ainda assim a coisa que mais escandaliza o gerente de redação que preferiria manchete sobre algum programa social que custa três vezes o valor que distribui.
Compare, agora, com a paisagem nacional. Um banco público brasileiro entrega resultado e o ministro de plantão sobe ao palanque como se tivesse parido o Atlântico. Mas o lucro de banco estatal carrega uma asterisco que o brasileiro médio nunca enxerga: o funding subsidiado, a captação privilegiada, o tesouro como avalista implícito, a concorrência amputada por decreto, o crédito direcionado a setores escolhidos não pelo retorno econômico mas pelo retorno eleitoral. Tira essas muletas todas e o resultado evapora. O que parecia força era andaime. Quer dizer, é o velho truque do mágico que segura o coelho com a outra mão.
Me diz uma coisa, por que é que país nenhum sério resolveu seguir o modelo de banco público gigante como motor de crescimento? Porque experiência demais já mostrou que crédito decidido por burocrata é crédito alocado pelo critério errado. O burocrata não conhece a padaria da esquina, não conhece o pequeno fabricante de parafusos do interior de Santa Catarina, não conhece a oficina mecânica do bairro. Quem conhece é o gerente que mora ali, que vê o movimento, que conversa com o dono. O preço do dinheiro, livre, é a única bússola que aponta para onde ele deve ir. Quando o estado decide, o dinheiro sempre vai para onde tem mais voto, nunca para onde tem mais produtividade.
E há ainda uma camada mais sutil, que escapa a quem só lê balanço. O lucro do Jyske não é apenas eficiência, é informação. Cada coroa devolvida ao acionista é um sinal para o resto da economia: aqui se aloca capital com competência, venha mais. No país tropical em que vivemos, esse sinal está embaralhado faz décadas. O lucro do banco estatal não diz nada porque ninguém sabe quanto dele veio do mérito e quanto dele veio da imprensa econômica oficiosa. O preço perde a função de informar e vira maquiagem. E maquiagem, todo mundo sabe, escorre no calor.
O resultado prático é cristalino. A Dinamarca tem cinco milhões e meio de habitantes, frio insuportável, recursos naturais escassos e um banco privado que entrega 17 coroas por ação no trimestre sem pedir nada a ninguém. O Brasil tem duzentos e tantos milhões de pessoas, terra fértil que o europeu inveja, sol o ano inteiro, e ainda assim convive com taxa real de juros que humilha empreendedor e protege banco grande. A diferença não está no clima. Está em quem decide para onde o capital vai, e quem paga a conta quando a decisão é errada. Lá, decide quem arrisca o próprio bolso. Aqui, decide quem arrisca o seu.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.