Um estaleiro japonês precisa de um robô para soldar chapa de navio e a imprensa econômica bate palma como se estivéssemos diante de uma revolução produtiva. Quer dizer, o fato concreto é este: a Kawasaki Heavy Industries admite, com todas as letras e em tom de press release triunfal, que não há mais seres humanos dispostos ou disponíveis para empunhar a tocha de solda nos docas de Kobe. Ponto. O resto é marketing. A máquina não está substituindo o soldador porque é mais eficiente, está substituindo porque o soldador sumiu, e ele sumiu porque a sociedade japonesa envelheceu num ritmo que nenhuma planilha de ministério previu, e envelheceu porque decretou, por sucessivas escolhas culturais e fiscais, que ter filho era luxo de quem tem tempo.
Olha, quando um país de 125 milhões de pessoas, com uma das maiores tradições industriais do planeta, precisa terceirizar o trabalho braçal básico para um braço mecânico, alguma coisa muito anterior à tecnologia quebrou. Quebrou a família, quebrou a formação técnica, quebrou a previdência, quebrou a conta do demográfico versus o tributário. O Japão gasta rios de ienes subsidiando idoso, imprime moeda há três décadas para fingir que a economia cresce, mantém juros negativos para esconder que ninguém investe em país que morre, e agora descobre que não tem mão para soldar o próximo cargueiro. A conta chegou disfarçada de robô.
E me diz uma coisa, por que não treinaram soldador? Porque treinar soldador custa dez, quinze anos de programa técnico, com aprendiz, mestre, oficina, salário decente, estabilidade familiar para o sujeito casar, ter filho, pagar casa. Nada disso existe mais num país onde o Estado consumiu a poupança nacional em obra pública e assistencialismo, onde a geração produtiva foi espremida por imposto para sustentar geração aposentada, e onde a imigração continua travada por razões que os próprios japoneses não ousam discutir em voz alta. O robô é mais barato que enfrentar o espelho. Sempre é.
Siga o dinheiro e o quadro fica ainda mais claro. Quem ganha com essa automação forçada? A Kawasaki, que vira fornecedora da sua própria solução interna e ainda exporta o robô para estaleiros coreanos e chineses com subsídio do METI. Quem paga? O contribuinte japonês, que financia via incentivo fiscal a máquina que tornará obsoleto o sindicato metalúrgico que seu pai ajudou a construir. O operário que sobrou vira operador de painel ganhando metade, o jovem que poderia ter virado soldador vira entregador de aplicativo, e o ministro da indústria sobe ao palanque para falar em quarta revolução industrial. É a velha pilhagem legalizada, agora com verniz de inovação.
Há algo de profundamente triste nessa cena, e não é o romantismo do ofício perdido, é o sintoma civilizacional. Uma sociedade que não consegue mais formar o homem que solda é uma sociedade que já não consegue formar o homem. O trabalho manual qualificado, aquele que exige anos de paciência, mestre ao lado, erro punido e acerto celebrado, é uma escola de caráter antes de ser escola de ofício. Quando o robô toma esse lugar, não é só emprego que se perde, é a antropologia inteira de uma cultura que se apagou sem que ninguém convocasse um referendo. E o pior, cada nação rica do ocidente está a poucos passos atrás do Japão nessa fila, inclusive o Brasil, que exporta jovem para Portugal enquanto importa soldador boliviano para erguer prédio em Pinheiros.
O robô da Kawasaki não é o futuro chegando, é o passado cobrando. E ele vai cobrar caro, com juros compostos, de toda civilização que achou que podia terceirizar simultaneamente a fábrica, o berço e a escola técnica sem que a conta aparecesse no balanço. Apareceu. Está soldando chapa em Kobe agora mesmo.
Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.