A KBR, aquela mesma que virou sinônimo de contrato militar desde os tempos da guerra do Iraque, acaba de fechar mais três anos de mamata com o Tio Sam, agora na área de radiofrequência. O comunicado chega embalado no vocabulário asséptico do setor de defesa, cheio de "soluções avançadas" e "capacidades críticas", como se o leitor fosse obrigado a aplaudir de pé toda vez que uma contratada do Pentágono renova assinatura. Quer dizer, a empresa não vendeu nada para ninguém que escolheu comprar; vendeu para o burocrata que assina cheque com dinheiro alheio.

Olha, o mercado de radiofrequência para governo é um daqueles nichos onde a palavra "concorrência" virou peça de museu. Você tem meia dúzia de fornecedores certificados, um cardápio fechado de compradores que só existe porque o contribuinte foi convocado à força a bancar, e uma dança de cadeiras onde os mesmos ex-generais viram executivos, os mesmos executivos viram consultores, e os mesmos consultores voltam para dentro do governo carimbar o próximo edital. O nome elegante disso é "complexo industrial de defesa". O nome honesto é capitalismo de compadrio com farda.

Me diz uma coisa: alguém no noticiário econômico se dá ao trabalho de somar quanto a KBR já embolsou de dinheiro público nas últimas duas décadas? Alguém pergunta por que uma empresa cuja receita depende quase inteiramente de um único cliente, o Estado, continua sendo tratada como se fosse a Apple do setor? A resposta é simples e desagradável. Não perguntam porque quem paga a conta, o pagador de imposto americano e, por tabela, o mundo inteiro que carrega o dólar no bolso, não tem assento na sala onde o contrato é assinado. O contrato é visível, ruidoso, celebrado no release. Os empregos que não foram criados no setor privado porque o capital foi drenado via tributação para financiar essa farra, esses ninguém vê, ninguém conta, ninguém lamenta.

E não venha o analista de plantão dizer que "é defesa nacional, é estratégico, não dá para deixar o mercado resolver". A ladainha é sempre a mesma quando se quer justificar reserva de mercado para amigo do rei. Radiofrequência é tecnologia madura, com aplicação civil massiva, disputada por dezenas de empresas no mundo real. Só vira "estratégico e insubstituível" quando o carimbo de segredo é conveniente para blindar o preço da concorrência e o escopo da fiscalização. Chame pelo nome. Isso é monopólio outorgado, e monopólio outorgado é sempre mais caro, mais lento e mais corrupto que o pior mercado livre que você consiga imaginar.

Há ainda o detalhe geopolítico que raramente entra na conta. Cada dólar que o Pentágono despeja em radiofrequência para "manter vantagem" é um dólar que sai do bolso do trabalhador americano e do trabalhador brasileiro que carrega dívida denominada em dólar. A conta da hegemonia é paga por muita gente que jamais foi consultada, e uma parte generosa dela desagua, ano após ano, em contratadas cujo modelo de negócio é sobreviver a mudanças de governo aprendendo o dialeto da moda, seja terrorismo nos anos dois mil, ciber nos anos dez, agora espectro eletromagnético contra a China. O produto muda, o cliente é o mesmo, o pagador também.

Três anos de contrato garantido é o tipo de notícia que faz acionista sorrir e cidadão comum bocejar, e é exatamente essa assimetria de atenção que sustenta o arranjo. Enquanto a manchete for tratada como bola dividida entre KBR e Pentágono, e não como transferência silenciosa de riqueza do produtor para o intermediário político, a próxima renovação já está contratada antes de o edital ser publicado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.