A KBR, aquela mesma empresa americana com DNA militar e currículo recheado de contratos com o Pentágono, acaba de comprar participação na Geolith, startup francesa que promete revolucionar a extração de lítio com a tal tecnologia DLE, extração direta da salmoura. Traduzindo para quem não está no clube: em vez de inundar desertos inteiros com piscinas de evaporação que demoram dezoito meses para produzir uma grama útil, você puxa o lítio direto do líquido salgado em horas. Bonito no PowerPoint, lucrativo no balanço, e convenientemente alinhado com a obsessão regulatória ocidental por descarbonização forçada.
Olha, a história é sempre a mesma e ninguém aprende. Primeiro vem o decreto: a partir de tal ano, ninguém mais vende carro a combustão. Depois vem a constatação óbvia, que qualquer engenheiro de segundo período já tinha alertado: bateria precisa de lítio, cobalto, níquel, terras raras, e esses minérios não brotam em jardim de subúrbio europeu. Aí o mercado, esse organismo desobediente que governo nenhum consegue domar de verdade, começa a se reorganizar para atender a demanda artificial criada pela canetada. KBR comprando Geolith não é visão estratégica de gente genial; é resposta tardia ao problema que os mesmos governos ocidentais criaram quando decidiram, sem consultar a física, que a transição energética seria rápida, barata e indolor.
E aqui aparece a parte que os comunicados oficiais escondem com capricho. Quem ganha de verdade nessa história? A KBR é fornecedora histórica do governo americano, com contratos que vão de bases militares no Iraque a engenharia para o Departamento de Energia. A Geolith opera num ecossistema francês onde subsídio público e parceria com estatal são quase pré-requisito para abrir a porta do escritório. Junte os pontos: dinheiro do contribuinte americano, dinheiro do contribuinte europeu, regulação criada para forçar consumo de produtos que dependem desses minérios, e duas empresas posicionadas exatamente no funil. Se isso é mercado livre, eu sou patinador artístico.
O detalhe técnico que ninguém quer discutir é que a tal extração direta de salmoura, por mais elegante que pareça, ainda enfrenta dúvidas sérias sobre escala industrial, consumo de água, custo real por tonelada e impacto ambiental fora dos slides de captação. Mas ninguém vai segurar essa onda agora, porque a narrativa já foi vendida, os subsídios já foram aprovados, os mandatos regulatórios já estão valendo, e qualquer um que apontar o rei nu vira inimigo do planeta no jornal das oito. O que se vê é o anúncio empolgante; o que não se vê é a conta da brincadeira chegando no boleto de luz, no preço do carro, no imposto disfarçado de incentivo verde.
O Brasil, claro, assiste ao filme do camarote errado. Temos lítio no Vale do Jequitinhonha, temos potencial para virar player relevante, e estamos ocupados discutindo se o Estado deve criar mais uma estatal para "coordenar" o setor, como se a tragédia da Petrobras petista não tivesse deixado lição suficiente. Enquanto americanos e franceses fazem aquisições cruzadas e travam posição na cadeia global, nossa elite política ainda acha que riqueza mineral se desenvolve por decreto e CPI. O resultado todo mundo já conhece: chegamos atrasados, com tecnologia importada, royalty mal cobrado, e o discurso pronto de que a culpa é do mercado.
No fim, a operação KBR-Geolith é mais um capítulo daquela história velha em que governo cria o problema, governo subsidia a solução, e empresa amiga fatura nas duas pontas enquanto o cidadão paga a fatura achando que está salvando o urso polar. A transição energética que vendem como inevitável é tão espontânea quanto fila de padaria soviética: existe porque alguém, em algum gabinete, decidiu que ela existiria, e azar de quem tiver que comprar o pão. Mercado de verdade não precisa de mandato, subsídio e cronograma compulsório; precisa de gente livre comprando e vendendo o que quer pelo preço que topa pagar. O resto é teatro caro com ingresso obrigatório.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.