A KE Holdings, gigante de plataformas imobiliárias na China, divulgou resultados que superaram as estimativas de analistas e, em vez de ser premiada pelo mercado, viu suas ações recuarem. Quem nunca olhou para a economia chinesa de fora do jingle oficial estranha. Quem olha há algum tempo apenas confirma o óbvio: em economia capturada por planejamento central, o resultado da empresa importa menos do que o humor do planejador. O investidor não está reagindo ao balanço, está reagindo ao chão que se move debaixo do balanço.

O problema não é a KE em si. O problema é o mercado imobiliário chinês inteiro, edificado durante duas décadas sobre uma das maiores expansões de crédito artificial da história humana. Construiu-se cidades inteiras para ninguém morar, financiou-se incorporadoras para que produzissem o que o consumidor real jamais demandaria, e chamou-se isso de milagre econômico. Quando o crédito barato cessa, o que parecia milagre revela-se miragem. Cada apartamento vazio em Zhengzhou é o testemunho silencioso de uma lei econômica que nenhum politburo jamais conseguiu revogar: capital mal alocado vira pó, e o pó eventualmente cai sobre a cabeça de quem fingiu não enxergar.

Siga o dinheiro e a fotografia clareia. Quem ganhou com a expansão imobiliária chinesa? Bancos estatais que emprestaram sem critério com garantia implícita do governo central, incorporadoras politicamente conectadas que multiplicaram balanços sobre dívida, prefeituras que vendiam terreno como se fosse imposto disfarçado, e a casta tecnocrática que cobrava pedágio em cada etapa. Quem vai pagar a conta agora? O poupador chinês que colocou economia de uma vida em imóveis fantasmas, o pequeno investidor estrangeiro que comprou a narrativa de crescimento eterno, e o trabalhador médio cuja moeda será corroída quando Pequim inevitavelmente abrir a torneira de novo para fingir que está tudo bem.

O que se vê é uma ação caindo apesar de bons números. O que não se vê é a regra invisível segundo a qual relatórios financeiros emitidos sob regime autoritário valem o que vale a palavra de quem manda nele. O auditor independente é independente até o dia em que o Partido decide que não é. O dado macroeconômico oficial é confiável até o trimestre em que ele incomoda demais e some da publicação. O investidor sofisticado já entendeu: precificar uma empresa chinesa é precificar três coisas ao mesmo tempo, a operação real, o humor regulatório do mês seguinte e a probabilidade de o CEO desaparecer numa quinta-feira para uma reunião que dura seis meses.

O caso KE serve de lição para muito além de Xangai. Toda vez que um governo decide quem cresce, quanto cresce e em que setor cresce, a informação econômica deixa de ser sinal e vira ruído ideológico. Preços param de comunicar escassez, juros param de comunicar risco, balanço para de comunicar realidade. E o resultado é exatamente o que se vê na tela: gente boa entregando bons números num cenário podre, porque a podridão não está na empresa, está no sistema que a engaiola. Quem aplaude o modelo chinês de hoje aplaude o boletim de notas de uma escola onde o diretor escreve as provas, corrige as respostas e fuzila quem reclama da nota.

Sobra a moral da história, que nenhum economista de banco central terá coragem de escrever no relatório semanal: não existe milagre econômico sem mercado livre, não existe mercado livre sem propriedade privada protegida, e não existe propriedade privada protegida onde o Estado é dono de tudo e finge que não é. O resto é teatro com cenário caro e plateia obrigada a aplaudir. As ações da KE caíram porque, finalmente, parte da plateia decidiu sair antes que apaguem as luzes.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.