A Keefe, Bruyette & Woods elevou o preço-alvo das ações da Federal Agricultural Mortgage Corporation, a tal Farmer Mac, depois que a companhia entregou um trimestre considerado sólido pelo mercado. A manchete passa como notícia de balanço, dessas que enchem o feed do investidor médio entre um gráfico e outro, e segue adiante. Só que vale parar dois minutos no nome completo da empresa, porque ali está escondida a explicação inteira do fenômeno: Federal. Não é uma fintech agro que apareceu num pitch em São Francisco. É uma criatura nascida em 1988 por ato do Congresso americano, uma Government Sponsored Enterprise, prima legítima daquelas duas senhoras que quebraram o mundo em 2008 e cujos nomes começam com Fannie e terminam com Mac.

O modelo de negócio é uma maravilha de engenharia institucional, no sentido em que um cassino com a banca subsidiada também é uma maravilha. A empresa compra empréstimos rurais de bancos comerciais, empacota esses empréstimos em títulos, vende esses títulos no mercado, e o investidor compra com tranquilidade porque pressupõe, com toda razão histórica, que se a coisa azedar o Tesouro americano aparece com o cheque. Essa percepção de garantia implícita reduz o custo de captação a níveis que nenhum banco privado de verdade conseguiria. O resultado contábil chega trimestre após trimestre com a regularidade de quem joga partida de futebol com a trave do adversário pregada com prego de vinte centímetros.

Quer dizer, o analista de Wall Street olha o balanço e vê eficiência operacional, disciplina de crédito, margem expandindo. O que ele não vê, ou finge não ver, é que a margem expande porque alguém, em algum lugar, está absorvendo o risco que a Farmer Mac não absorve. Esse alguém é o contribuinte americano, que nunca assinou contrato nenhum mas é o avalista silencioso de toda a brincadeira. O lucro é privado, distribuído em dividendo e em bônus para executivos. O prejuízo, quando vier, e ele sempre vem nesse tipo de arranjo, será socializado com a eficiência de uma escavadeira passando por cima do orçamento federal.

Me diz uma coisa, se o negócio é tão bom assim, por que precisou de um decreto do Congresso para existir? A resposta honesta é que não precisava existir. O crédito rural nos Estados Unidos funcionava antes da Farmer Mac, funcionaria sem ela, e funciona pior por causa dela. O que a criatura faz, na prática, é deslocar capital de setores que teriam que competir pelo dinheiro a preço de mercado para um setor escolhido a dedo pelo lobby agrário de Washington nos anos 80. Cada dólar mais barato que o fazendeiro do meio-oeste recebe é um dólar mais caro que alguém em outro lugar paga, só que esse alguém não aparece no comunicado da corretora.

O detalhe saboroso, e aqui mora a piada, é que esse modelo é vendido nos manuais como triunfo do capitalismo americano. Olha, capitalismo é quando o empresário arrisca o próprio patrimônio e colhe o resultado, bom ou ruim. Quando a empresa nasce de carta patente do Estado, opera com isenção fiscal seletiva, financia-se a juros artificialmente baixos porque o mercado assume socorro federal, e ainda distribui dividendo para acionista privado, isso tem nome em economia política, mas não é capitalismo. É outra coisa, mais antiga, mais feia, e que costumava ser chamada sem cerimônia pelos seus inventores no Antigo Regime de privilégio régio.

A elevação do preço-alvo é, portanto, racional do ponto de vista do investidor. Comprar ação de empresa com garantia implícita do governo mais poderoso do planeta é negócio óbvio, tão óbvio quanto comprar título do Tesouro com cupom turbinado. O problema não é o investidor ser esperto. O problema é a peça de teatro coletiva em que todo mundo finge que isso é mercado, que isso é livre iniciativa, que isso é mérito da gestão. Não é. É um arranjo extrativo desenhado por advogados em Washington e cobrado, com juros, do bolso de gente que nunca viu uma plantação de milho na vida.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.