O Peru foi às urnas no domingo, 12 de abril, e a primeira coisa que o Estado peruano fez foi não conseguir abrir as urnas. Duzentas e onze seções eleitorais simplesmente não foram instaladas em quinze locais de votação na Grande Lima. Sessenta e três mil eleitores chegaram ao ponto de votação e encontraram o que o Estado entrega com consistência exemplar: ausência. O órgão eleitoral garantiu que ninguém seria multado por isso, o que é o mínimo de decência num país onde a incompetência institucional já não surpreende nem indigna, apenas cansa. Num ambiente assim, Keiko Fujimori saiu na frente com 16% dos votos, segundo o boca de urna. Não é um triunfo, é um sintoma.

Para entender o que acontece no Peru, basta contar: oito presidentes em dez anos. Oito. Nenhum golpe militar clássico, nenhuma guerra civil, nenhuma catástrofe natural, apenas o funcionamento normal de um sistema político que aprendeu a devorar seus próprios ocupantes. Cada presidente que chegou ao poder com um programa de intervenção, controle e redistribuição produziu o mesmo resultado, com variações mínimas de enredo: escândalo, desgaste, impeachment ou renúncia. O país não está quebrado por falta de governo, está quebrado pelo excesso dele, pela crença persistente de que o problema de ontem se resolve com mais Estado amanhã. Cada intervenção gerou a distorção que gerou o escândalo que gerou a crise que gerou a demanda por um novo salvador. O Peru é o laboratório perfeito dessa espiral.

Nesse contexto, Keiko Fujimori vai ao segundo turno pela quarta vez na vida. Quatro. Isso merece um segundo de contemplação. Uma candidata que já perdeu três disputas presidenciais, que carrega o sobrenome de um pai condenado por crimes graves, que ficou presa preventivamente por anos durante investigações de corrupção, chega em primeiro lugar num campo de 35 candidatos. A pergunta óbvia é: o que isto diz sobre os outros 34? Diz que a fragmentação é tanta, o descrédito tão amplo, que 16% de um eleitorado desesperado é suficiente para liderar. Não é que o Peru acredita em Keiko. É que o Peru parou de acreditar em quase tudo e ainda assim precisa marcar um nome na cédula.

Trinta e cinco candidatos presidenciais. Não é democracia vigorosa, é confissão de falência política. Quando um sistema partidário implode a esse ponto, o que se vê não é diversidade de ideias, mas o esfarelamento de qualquer capacidade de agregar preferências e produzir governança. O conhecimento sobre o que o Peru precisa está disperso em milhões de peruanos, nos pequenos comerciantes de Lima, nos agricultores do interior, nos exportadores que navegam sozinhos por entre regulações contraditórias. Nenhum dos 35 candidatos acessa esse conhecimento, porque nenhum sistema político quebrado consegue fazer isso. O preço disso é pago no dia a dia, nas filas do serviço público, nas seções de votação que simplesmente não abrem.

Fujimori prometeu expulsar imigrantes ilegais e aproximar o Peru de Washington. São as promessas de quem leu o mapa geopolítico de 2026 e percebeu que o vento sopra para esse lado. Podem ser convicções genuínas ou cálculo eleitoral sofisticado. O que importa para o analista sério não é o que ela promete, mas o que ela faz quando governa, e aí a ficha corrida da família não inspira confiança conservadora alguma. O fujimorismo histórico não foi liberalismo, foi capitalismo de compadrio com mão forte. Substituir o Estado inchado de esquerda pelo Estado inchado de direita é trocar a dor de cabeça pela enxaqueca.

O segundo turno peruano ainda não tem adversário confirmado, com Roberto Sánchez e Rafael López Aliaga disputando a segunda vaga em contagens apertadas. Seja qual for o nome que chegar ao lado de Keiko em junho, o Peru estará diante da mesma escolha que a América Latina faz em loop: mais intervenção pela esquerda ou mais intervenção pela direita, com a conta sempre chegando para o cidadão que trabalha, poupa e tenta viver sem pedir favor ao governo. A democracia peruana funciona no papel. No papel e em 63 mil urnas que não abriram.

Com informações do Valor Econômico, Bloomberg e La República. A análise e opinião são do O Algoz.