A pesquisa publicada nesta semana mostra Keiko Fujimori três pontos à frente do candidato da esquerda, e o detalhe relevante não é a margem apertada, é o fato de que, pela quarta eleição consecutiva, o Peru se recusa a entregar o país de bandeja para o projeto bolivariano que devastou Venezuela, Nicarágua e Cuba. Três pontos parecem pouco até você lembrar que estamos falando de um país onde o último presidente eleito pela esquerda dura, Pedro Castillo, terminou preso depois de tentar fechar o Congresso em pleno expediente, como se fosse síndico de prédio destemperado.
Quem acompanha a região com atenção sabe que o Peru não é exceção, é regra silenciosa. Enquanto a imprensa internacional vendia a tal "onda rosa" como destino manifesto do continente, o eleitorado peruano vinha rejeitando, eleição após eleição, a tentação de transformar o Estado em distribuidor de favores travestido de justiça social. O peruano comum, aquele que pega ônibus em Lima às cinco da manhã para vender fruta no mercado, entendeu antes dos intelectuais que controle de preço não enche prato, e que cada bolivariano novo no comando significa um amigo do presidente comprando refinaria pela metade do preço.
Quer dizer, vale seguir o dinheiro um instante. A campanha de Sánchez, como toda campanha da esquerda continental nos últimos vinte anos, costuma viver de financiamento opaco, ONG internacional travestida de organização cívica, fundação europeia com sede em Bruxelas repassando recurso para "fortalecimento democrático", o que na prática significa pagar militante para encher praça. Do outro lado, o sobrenome Fujimori carrega uma herança complicada, ninguém aqui está fazendo santinho de plástico, mas carrega também a memória de quem quebrou o Sendero Luminoso quando a esquerda chique do mundo todo ainda chamava terrorista de revolucionário romântico.
O ponto mais interessante dessa eleição é o que ela revela sobre o estado real da América Latina em 2026. A narrativa de que o continente caminhava inexoravelmente para um novo ciclo progressista bateu de frente com a inflação argentina derretida por Milei, com o desgaste petista no Brasil, com o colapso moral do regime cubano, com o êxodo venezuelano que já passou de oito milhões de almas. O eleitor latino-americano, esse animal político subestimado por décadas pelos formadores de opinião do Rio e de Buenos Aires, está aprendendo a fazer aquilo que toda democracia madura faz, votar contra quem promete demais e a favor de quem promete o suficiente.
Olha, a margem de três pontos é estreita o bastante para um susto de última hora, e ninguém deveria celebrar antes da apuração. Mas o recado já está dado, e ele transcende o Peru. A receita socialista, depois de meio século de evidência empírica devastadora, só sobrevive em dois lugares, nos países onde já destruiu tudo e não há mais nada a perder, e nas universidades europeias onde professor de meia tigela ainda acha que dessa vez vai dar certo. No mundo real, onde gente trabalha e paga conta, ela perde. Lentamente, eleição a eleição, mas perde.
Que sirva de lembrete aos profetas do inevitável progressismo continental, a história não tem lado certo, tem consequência certa. E o eleitor que já provou do remédio amargo dificilmente volta a pedir o frasco.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.