Olha só o arranjo. O Quênia, que vinha acumulando dívida externa como adolescente com cartão sem limite, descobre de repente que a guerra do Irã é uma desculpa providencial para correr ao Banco Mundial com o pires na mão. O governador do banco central anuncia, sem constrangimento, que está em "conversas" para obter financiamento emergencial. Quer dizer, o país que gastava mais com serviço da dívida do que com saúde e educação somados agora descobriu um bode expiatório a oito mil quilômetros de distância. Que conveniência.

Me diz uma coisa: desde quando um choque externo, que afeta dezenas de países simultaneamente, justifica empréstimo emergencial a um único devedor crônico? A resposta honesta é que não justifica, mas o teatro diplomático exige que se finja o contrário. O Quênia entrou em 2024 com protestos violentos contra aumento de impostos, recuou nas medidas fiscais, continuou gastando como se a conta fosse paga por outro, e agora apresenta a fatura do Oriente Médio como se fosse causa e não pretexto. A guerra no Irã é o álibi. A doença é anterior, estrutural, crônica e autoinfligida.

Siga o dinheiro e você entenderá o esquema. O Banco Mundial libera centenas de milhões, o governo queniano paga fornecedores conectados, rola a dívida interna que estava explodindo, e a fatura recai sobre quem? Sobre o contribuinte americano, europeu, japonês, brasileiro, que capitaliza o Banco Mundial sem nunca ter sido consultado se quer sustentar a farra fiscal de Nairóbi. É o modelo clássico: socializam-se as perdas do mau governante, privatizam-se os ganhos dos intermediários, e o cidadão comum, keniano ou estrangeiro, paga em inflação, impostos e oportunidades perdidas.

Há algo profundamente pervertido nessa lógica de bancos multilaterais que se apresentam como bombeiros mas funcionam como piromaniáacos credenciados. Cada "resgate" emergencial ensina ao governo seguinte que a gastança será perdoada, que a irresponsabilidade é remunerada, que a disciplina fiscal é coisa de otário. É a pedagogia do moral hazard aplicada em escala continental. E depois se perguntam por que o continente africano, depois de sessenta anos de ajuda externa, continua dependente de ajuda externa. Não é mistério, é consequência.

O mais irônico é que a única coisa capaz de proteger qualquer economia, grande ou pequena, de choques externos é exatamente aquilo que o arranjo institucional global desestimula: moeda sólida, orçamento equilibrado, mercado livre, propriedade garantida, baixa tributação e pouquíssima intervenção. Países que seguem essa receita absorvem guerras, pandemias e furacões com encolhimento e depois recuperação. Países que não seguem precisam do Banco Mundial toda vez que alguém espirra em Teerã. E o Quênia, infelizmente, decidiu há muito tempo de que lado da estatística quer estar.

No fim, o que se vê é um pedido de socorro. O que não se vê é o sistema que produz pedidos de socorro em série, que recompensa a mendicância institucional e pune quem fez o dever de casa. Guerra do Irã não quebra país saudável. Quebra país que já estava quebrado e precisava de um álibi respeitável.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.